Leonardo Soares/AE
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Adolescentes se vendem em 1.820 pontos das federais

Levantamento da Polícia Rodoviária mapeia boates, postos, bares e trevos de estradas com registro de exploração sexual infantil

Renato Machado e Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2010 | 00h00

Nas rodovias por onde passa grande parte da riqueza do Brasil, também estão meninos e meninas vendendo seus corpos para sobreviver, satisfazer vícios ou enriquecer aliciadores. As estradas federais paulistas apresentam um ponto de exploração sexual infantil a cada 11,2 quilômetros - o pior índice entre os Estados do País, segundo levantamento realizado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Para verificar o problema, a reportagem percorreu as três principais rodovias federais que cortam o Estado: Régis Bittencourt, Fernão Dias e Dutra. Há pontos que apresentam o problema há pelo menos sete anos, quando a PRF realizou o primeiro mapeamento. Numa rua próxima a um posto de gasolina em Lorena, no Vale do Paraíba, crianças esperam caminhoneiros na beira da Via Dutra, ao lado de uma grande rede de restaurantes. Com o dinheiro, vão para um galpão abandonado ao lado - o mesmo que utilizam há anos - para consumir crack. "Faço o que quero com o meu corpo", disse uma menina de 1,50 metro, de saia surrada e rosto de criança - não aparentava ter mais de 15.

Levantamento. O estudo da PRF apontou a existência de 1.820 focos onde há essa prática ao longo dos 66 mil quilômetros da malha federal em todo o País. Houve pouca variação em relação ao levantamento de 2007, quando foram registrados 1.819 pontos. "Verificamos migração entre os pontos, indicando que o enfrentamento ainda não é eficaz", disse o inspetor da PRF Moisés Dionísio da Silva. "Mas o mapeamento servirá para definir prioridades de fiscalização e políticas públicas."

A polícia identificou como pontos de exploração postos de gasolina, boates na beira das rodovias, bares e até acessos às cidades. A maior parte (69,3%) está em áreas urbanas. Os Estados com maior número de pontos são Paraná, Rio Grande do Sul, Bahia, Minas Gerais e Goiás.

Malha paulista. São Paulo é o nono da lista, com 92 pontos. Mas a malha de rodovias federais do Estado é uma das menores do País, o que significa que o problema está presente em praticamente toda a sua extensão. O levantamento deste ano também dividiu pontos de exploração segundo nível de risco. E a liderança dos considerados "críticos" fica novamente com São Paulo, quando se leva em conta a extensão da malha.

"Grande movimento de caminhões, alta densidade populacional na beira das estradas e desigualdade entre municípios transformam São Paulo em um "resumo" da exploração. A desigualdade é fator comum nos pontos mais problemáticos", explicou Dionísio.

Outra característica comum a 73,6% dos pontos pesquisados é inexistência ou ineficácia de conselhos tutelares em municípios na beira das rodovias federais. "Não se pode ficar apenas com ações paliativas. É necessário investir para fortalecer a rede de apoio", avaliou Thaís Dumêt Faria, representante da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

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