Adolescentes e pornografia na rede

Com mais gente acessando o tempo todo a internet, o consumo de pornografia online tem aumentado de forma importante. Só que agora essa busca tem atingido cada vez mais crianças e adolescentes, o que começa a levar os especialistas a uma série de reflexões e propostas de novas condutas.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

12 Abril 2015 | 02h03

Um estudo recente de duas ONGs inglesas de defesa dos direitos infantojuvenis, publicado no site da BBC Brasil, que entrevistou 700 jovens de 12 e 13 anos, mostrou que um em cada dez deles já fez ou participou de um vídeo com conteúdo sexual explícito. O número revela um grau de exposição sem precedentes na vida desses adolescentes.

Além disso, 20% dos entrevistados disseram ter visto imagens com conteúdo erótico que os chocaram, e 10% temem estar ficando viciados em pornografia. O trabalho foi feito pelas ONGs National Society for the Prevention of Cruelty to Children e Childline.

Um dos temores é que essa exposição e o consumo excessivo de pornografia online façam mais jovens ficarem deprimidos, com problemas de autoestima e se sentindo pressionados a iniciar sua vida sexual antes de estarem prontos.

Ao assistir a horas de vídeos com performances mirabolantes e fantasias exageradas, os adolescentes podem ficar com a sensação de que jamais vão dar conta do recado, em um momento em que muitos ainda nem iniciaram o mais básico de sua vida sexual.

Jovens impulsivos. Bom lembrar também de um outro trabalho atual, já comentado nessa coluna, da universidade americana de Penn State, que mostra que o comportamento do jovem ao gerenciar sua privacidade na internet é muito mais impulsivo do que o dos adultos. Assim, assumir riscos antes de medir consequências é um padrão comum.

Não é à toa que tantos podem estar se expondo em vídeos e fotos de forte teor erótico, sem ter noção dos impactos que essa atitude pode ter em seu futuro. Há quem afirme, inclusive, que se expor dessa forma é um fenômeno que pode até ser visto como um ganho por parte deles. A popularidade criada pelas imagens ousadas compensaria eventuais problemas. Só quando a reação ganha escala ou gera conflitos é que muitos vão se preocupar com o alcance da exposição. E, aí, pode ser tarde demais.

Pornografia e risco. Ainda em relação à pornografia, vale a pena lembrar de um outro estudo, divulgado no final de janeiro, realizado pela universidades australianas de Sydney e de Curtin, que fez uma análise de 17 pesquisas anteriores sobre comportamentos de risco entre maiores de 18 anos. Sete delas mostram uma relação direta entre maior consumo de pornografia online e prática mais frequente de sexo desprotegido. Além disso, foi detectado um aumento do número de parceiros e da frequência de sexo casual.

Se esse impacto foi provocado nos que já têm alguma experiência no sexo, o que pensar das consequências que o consumo mais frequente de pornografia e a exposição na rede podem ter na vida sexual e afetiva dos adolescentes?.

Por isso, muitas ONGs e autoridades têm investido na produção de materiais voltados para os mais jovens (como histórias em quadrinhos) que tentam abordar o assunto e falar de riscos, impactos e consequências de um consumo frequente de pornografia na rede.

Além disso, como proibir e limitar o acesso à internet nessa faixa de idade costuma ter resultados muito parciais, a ideia seria estimular pais e filhos a conversarem sobre o tema. Também um trabalho mais estruturado nas escolas, que busque relacionar sexualidade, relacionamentos e vida online, pode ser uma estratégia de ação importante. Só não se pode deixar que, no vácuo de projetos de sexualidade e prevenção, as imagens e os conteúdos pornográficos encontrados na internet sejam a única fonte de informação para o jovem.

*É psiquiatra

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