Acusados de tráfico internacional foram soltos sem denúncia

Detidos pela Operação Oversea foram liberados pela Justiça antes de qualquer julgamento por falta de acusação

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2014 | 03h00

SÃO PAULO - Parte dos acusados de tráfico internacional de drogas detidos após a Operação Oversea, a maior ação contra o tráfico ocorrida em 2014 em São Paulo, foram soltos pela Justiça antes de qualquer julgamento. O Ministério Público Federal não apresentou nenhuma denúncia à Justiça contra esses suspeitos, que tiveram de ser liberados por falta de acusação.

O MPF informou que o procurador responsável pelo caso não comentaria o assunto. Na sexta-feira passada, 31, o órgão apresentou a quarta denúncia à Justiça decorrente da operação - que, em março, apreendeu 3,7 toneladas de cocaína no Porto de Santos, prestes a ser embarcada para a Europa.

Entre os beneficiados pela falta de acusações estão os colombianos Yul Neyder Morales Sanches e Cristobal Morales Velasquez. Os habeas corpus para esses suspeitos foram concedidos no dia 7 de outubro. Eles estavam presos desde junho. "O Ministério Público ultrapassou qualquer critério de razoabilidade. Não é aceitável que alguém seja mantido segregado cautelarmente tanto tempo", escreveu o desembargador federal Nino Toldo ao aceitar os pedidos feitos pelo defensor dos acusados.

Os colombianos são apontados como representantes de fabricantes de cocaína que usavam o Porto de Santos para fazer a droga chegar à Europa. Para isso, usavam conexões com o Primeiro Comando da Capital (PCC) no Brasil e com a organização mafiosa italiana N'Drangheta em diversos portos.

A soltura da dupla revoltou os policiais federais que participaram da prisão deles por um motivo extra: é a segunda vez que ambos são soltos. Eles haviam sido presos em decorrência da Operação Oversea e também haviam obtido habeas corpus anteriormente. 

Mas a PF conseguiu novos mandados contra eles diante de indícios de tentativa de fuga e, com a ajuda do departamento antidrogas dos Estados Unidos (DEA, na sigla em inglês), prendeu Sanches no consulado americano da Argentina e Velasquez quando ele voltou para a Colômbia. "Sabe quando vamos prender eles de novo?" questionou, retoricamente, um dos policiais do caso. 

Apontado como associado da dupla colombiana, o brasileiro Carlos Alberto Sgobbi também foi beneficiado pela falta de acusações.

Sgobbi aparece em relatórios da inteligência da PF de maio de 2013, obtido pelo Estado, enquanto tinha mensagens de texto monitoradas pela PF. De Antuérpia, na Bélgica, ele dava informações sobre o recebimento de uma carga de cocaína na Europa.

Segundo ofício enviado pela própria Justiça Federal à 11ª turma do TRF, que julgou o habeas corpus de Sgobbi, haviam sido identificadas viagens do acusado para Bolívia, Paraguai, França, Alemanha, Inglaterra, Espanha e os Emirados Árabes. "o que demonstra que ele tem contatos não só para receber a droga na Europa, como também com fornecedores da América do Sul", segundo o texto. Ele havia sido preso em setembro, em Ribeirão Preto. 

A Justiça também negou outros pedidos de habeas corpus contra outros suspeitos de envolvimento com as organizações criminosas que também não foram denunciados.

Anderson Lacerda Pereira, vulgo Dido, foi apontado pela PF como uma das conexões entre o PCC e a N'Drangheta. Ele vinha sendo monitorado por autoridades brasileiras e pela Direzione Centrale Per I Servizi Antidroga, o departamento contra narcóticos do Ministério do Interior da Itália. Também era um dos encarregados de descobrir navios que pudessem abrigar as drogas. Sua soltura foi indeferida em agosto.

Tudo o que sabemos sobre:
PCCMPEtráfico de drogas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.