Acusado de matar peão diz que queria atirar em outro colega

Rinaldo Aragão iria disparar também em Vílson Martins de Araújo por causa de uma suposta 'compra' de juízes

Brás Henrique, especial para o Estadão,

05 de novembro de 2007 | 17h44

O peão Rinaldo Aragão, de 45 anos, preso na madrugada de domingo, 4, na Fazenda Cristo Rei, em Bonópolis (GO), acusado de matar, em outubro, o colega de profissão Virgílio Gonçalves, de 35, deverá ser o último a depor no inquérito.   O delegado Luiz Fernando Calmon Ribeiro, que o procurou desde o crime, ouvirá testemunhas e analisará o laudo necroscópico nos próximos 15 dias. Mas o peão já adiantou ao delegado que Gonçalves não seria a única vítima naquela noite: Vílson Martins de Araújo, o Batata, escapou por um triz de também ser baleado. E Aragão ainda responde outro inquérito, em Itapeva, por disparar três tiros no peito de um homem, que sobreviveu.   "Me surpreendeu, não devo nada, não mereço isso", disse Araújo, ao ser questionado se sabia que seria o outro alvo de Aragão. Na noite de 11 de outubro, durante a Festa do Peão de Novo Horizonte, no brete (local onde os animais ficam confinados antes das montarias), Aragão teria atirado duas vezes contra Gonçalves, tricampeão em Barretos de montaria em cavalos. O peão morreu três dias depois num hospital de Catanduva.   Os disparos foram feitos no apagar das luzes para a queima de fogos da abertura do rodeio. Araújo estava perto do amigo Gonçalves e, ao ouvir os tiros, correu em direção ao palco. "Nem vi a cara dele (Aragão), que estava do meu lado, saí correndo, tropiquei e caí perto do palco", relata Araújo. "Fiquei com medo na hora e depois ouvi que ele (Aragão) queria me pegar."   Segundo o delegado Ribeiro, Aragão, apesar de arrependido, teria premeditado o crime, pois colocou uma roupa escura e esperou o apagar das luzes. Ele já teria feito várias ameaças e em 2001 atirou contra dois homens em Itapeva. Em sua defesa, usa outro argumento: que Gonçalves, que organizava alguns rodeios, teria "comprado" juízes. Aí surgiram os boatos. "Boatos correm solto, como no futebol", compara Araújo, que, eventualmente, também atua como juiz, além de ainda montar cavalos. "Amigos todos são e cada árbitro tem um pensamento."   Sobre a rivalidade entre Aragão e Gonçalves ter surgido em Barretos, em 2006, Emílio Carlos dos Santos, o Cacá, diretor de rodeios de Os Independentes, informa que a organização da tradicional Festa do Peão de Boiadeiro adota os seus critérios de seleção de peões (inclusive por idade) e que Gonçalves nunca teve influência. Sobre outros rodeios e os "boatos", Cacá preferiu não opinar.   Em 2006, em Guaxupé (MG), teria ocorrido um fato polêmico sobre atuação de juízes, que aumenta os boatos do rodeio. Araújo, Milton Cosme e um terceiro árbitro eliminaram Aragão foi eliminado na fase inicial. Já Gonçalves venceu a disputa e outro peão, insatisfeito, acusou Cosme de favorecê-lo, pela amizade desde a infância, e apontou uma faca em sua direção. "Começamos a montar juntos, mas todos os árbitros sofrem esse tipo de pressão", defende-se Cosme. Sobre a faca apontada, minimiza: "Foi um mal-entendido do momento."   Do incidente recente com o amigo Gonçalves, ele relembra que, em 1995, em rodeio em Araçatuba, Aragão ganhou um de seus carros em rodeios. E Gonçalves era o juiz. "Eu era peão naquela época", recorda Cosme.   Mirela Rocha Gonçalves, a viúva de Virgílio, espera que a Justiça seja feita com a prisão de Aragão, já que não terá mais seu marido de volta. Ela disse que ouviu boatos que Aragão queria pegar seu marido, mas não soube de discussões entre eles. "É pura inveja, porque o meu marido era o melhor em montaria em cavalos", desabafa Mirela. Sobre a versão de Aragão citar "compra de juízes", ela não titubeia: "Isso é mentira dele, agora quer se justificar porque meu marido não está aqui para se defender."   No interior de Goiás, Aragão usava o nome de "Dinho", numa fazenda, onde domava burros e cavalos. Mesmo entre os policiais, quase passou despercebido. Mas com o encontro de seus documentos na residência do dono, Aragão foi identificado e confessou o crime ocorrido em Novo Horizonte. A arma do crime, disse ele, teria sido vendida para comprar combustível e fugir. Ele foi rastreado por ligações telefônicas oriundas de Goiânia e depois de São Miguel do Araguaia, vizinha de Bonópolis.

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