Acusado de matar Glauco é preso após enfrentar PF na fronteira do Paraguai

Carlos Eduardo Sundfeld Nunes permaneceu 3 dias escondido em um matagal; aos federais, disse que cumpria 'um chamado de Deus'

Evandro Fadel / CURITIBA e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

16 Março 2010 | 00h00

A Polícia Federal prendeu Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, no fim da noite de anteontem. O estudante acusado de matar o cartunista Glauco Vilas Boas, de 53 anos, e seu filho Raoni, de 25, na madrugada de sexta-feira, em Osasco, tentava chegar ao Paraguai por Foz do Iguaçu, região oeste do Paraná. Em depoimento informal a agentes federais, o rapaz disse que apenas cumpria um "chamado de Deus", uma "missão".

O cerco ao estudante chegou ao fim por volta das 23 horas de domingo, quando ele cruzava a Ponte da Amizade em um veículo roubado. A fuga, porém, começou pela manhã, com o roubo de um Ford Fiesta Sedan, na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo. Antes disso, ele passara três dias escondido em um matagal, na região do Pico do Jaraguá.

Nunes seguiu viagem para o Paraguai. O estudante não contava, porém, com a troca de informações entre as Polícias Rodoviárias de São Paulo e do Paraná sobre o roubo do automóvel. Quando chegou a Santa Terezinha do Itaipu, já no Paraná, a cerca de 30 km da fronteira, o rapaz foi interceptado por policiais rodoviários. Nesse ponto, ocorreu o primeiro confronto e ele fugiu. Uma hora depois, quase no meio da Ponte da Amizade, o estudante furou um bloqueio da PF, trocou tiros e acabou preso.

O estudante teria confessado o crime, antes mesmo de ser questionado pelos policiais. A PF afirmou não ter entrado em detalhes sobre o crime em razão de o duplo homicídio ser investigado pela Polícia Civil paulista. O delegado federal José Alberto Iegas, no entanto, contou que o rapaz tem um discurso místico no qual declara ser Jesus Cristo.

Aos agentes federais, o estudante afirmou que estava disposto a matar, caso fosse necessário, durante a fuga. Ele chegou a atirar contra os policiais, atingindo um deles no braço. O policial seria submetido a uma cirurgia ontem para a retirada da bala. O estudante estava com uma pistola 7,65 mm, com um pente de 25 tiros vazio e outro intacto.

Confissão. Logo depois da prisão, uma equipe da Rede Paranaense de Comunicação (RPC) conseguiu entrevistar o acusado de matar Glauco e seu filho. Com as roupas rasgadas e os olhos saltados, fez sinal de concordância com a cabeça à pergunta sobre a autoria da morte do cartunista. Com a insistência da repórter, respondeu: "Foi, foi."

A Rede Bandeirantes também divulgou um vídeo com Nunes, mais sóbrio e calmo, enquanto era interrogado. O estudante relatou como teria ocorrido o crime. "Tô com uma arma na mão, no meio do mato, apontando a arma para um cara famoso. Olha os caras vão me condenar à morte aqui no Brasil. Vão me "f..." com a vida. Aí, eu peguei e falei: Você "f..." com a minha. Demorou, vou "f..." com a sua também. Aí, atirei nele. Aí, o filho dele veio para cima de mim. Atirei no filho dele também."

O estudante confirmou que a mesma arma usada no crime de sexta-feira foi usada no confronto com os policiais federais. "Com a mesma arma", disse Nunes. Um policial pergunta: "Você que matou os dois, então?" E ele responde: "Foi eu. Foi eu."

Crimes. Após o confronto com agentes federais, a lista de crimes que o estudante teria cometido cresce. Agora, Nunes deve responder por duplo homicídio (assassinato de Glauco e Raoni), tentativa de homicídio e agressão, ocorridos na madrugada de sexta-feira. Pelos crimes cometidos no domingo, o estudante acumularia acusações de roubo de carro, tentativa de homicídio, resistência à prisão, porte ilegal de arma e porte de drogas.

A PF encontrou 2,7 gramas de maconha com o rapaz, mas apenas exames toxicológicos apontarão se ele estava drogado.

A transferência do preso para São Paulo depende de uma decisão da Justiça Federal. Ontem, às 23 horas, estava previsto o embarque do delegado paulista Archimedes Cassão Veras Júnior para Foz do Iguaçu, onde Nunes está isolado em uma sala da sede da PF. A pedido da Polícia Civil, a Justiça decretou prisão temporária de Nunes por 30 dias.

PONTOS-CHAVE

O crime

O cartunista Glauco Vilas Boas e o filho, Raoni, são assassinados na chácara em que moravam, em Osasco, na Grande São Paulo. No mesmo dia, um suspeito é identificado

A fuga

A polícia passa a procurar o estudante Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, de 24 anos, principal suspeito do assassinato. Ainda no sábado, a polícia acha o veículo usado na noite do crime

O motorista

O estudante Felipe Iasi, de 23 anos, se apresenta à polícia, diz ter sido obrigado por Nunes a dirigir até a casa do cartunista na noite do crime e afirma que não presenciou os assassinatos

Prisão e acusações

Sundfeld é preso à zero hora e confessa. Ele vai responder por duplo homicídio, agressão, roubo de veículo, tentativa de homicídio, resistência à prisão, porte de arma e porte de drogas

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