SERGIO CASTRO/ESTADAO.
SERGIO CASTRO/ESTADAO.

Acusado de fraude no Municipal fecha delação e cita ex-secretário de Cultura

Ex-diretor de instituto que geria teatro, William Nacked diz que Juca Ferreira sabia de problemas na gestão da instituição; ele alegou ter sido ‘traído’

Adriana Ferraz e Alexandre Hisayasu, O Estado de S.Paulo

25 Agosto 2016 | 03h00
Atualizado 25 Agosto 2016 | 16h01

SÃO PAULO - O ex-diretor do Instituto Brasileiro de Gestão da Cultura (IBGC), William Nacked, fechou acordo de delação premiada com o Ministério Público Estadual (MPE-SP), que investiga um esquema de corrupção que desviou pelo menos R$ 15 milhões da Fundação Theatro Municipal. Ele se comprometeu a devolver mais de R$ 3 milhões desviados do esquema e citou o ex-secretário da Cultura da gestão Fernando Haddad (PT) Juca Ferreira.

Nacked é apontado pelos promotores como um dos principais integrantes do esquema, ao lado do ex-diretor do Municipal, José Luiz Herência – que também fez acordo de delação premiada e se comprometeu a devolver R$ 6 milhões – e do maestro John Neschling, que nega as acusações dos delatores.

O Estado apurou que o acordo de Nacked foi homologado pela Justiça e ele já prestou mais de 20 horas de depoimentos aos promotores do Grupo Especial de Delitos Econômicos (Gedec). O IBGC é a organização social (OS) responsável pela gestão do teatro. O esquema de desvio de recursos teria começado quando Herência foi nomeado diretor da Fundação Theatro Municipal, em 2013. 

Juca. Em depoimento, Nacked afirmou que o então secretário Juca Ferreira assinava autorizações para aumentar aditivos nos contratos do teatro, a pedido de Herência, mesmo sabendo que havia problemas na gestão do Municipal. Ferreira não sabia do esquema de corrupção e autorizava os pagamentos por confiar na administração de Herência, conforme o delator. A investigação apurou que os contratos eram superfaturados. Ferreira também insistiu para que Haddad nomeasse Herência como diretor da Fundação Theatro Municipal por acreditar que ele era tinha qualificações para o cargo.

Nacked disse também que o secretário de Comunicação Social da Prefeitura, Nunzio Briguglio Filho, atuou na Prefeitura para a contratação do IBGC, do espetáculo Alma Brasileira (que foi parcialmente pago e nunca exibido) e para a contratação da produtora Olhar Imaginário, que recebeu R$ 540 mil para produzir vídeos sobre o Municipal que só foram postados no YouTube. Ainda segundo o delator, o maestro Neschling obtinha vantagens de outra natureza. Ele usava de sua influência como diretor artístico do teatro para contratar artistas e produtores de fora do País com cachês elevados que, posteriormente, o contratavam para apresentações no exterior, em uma espécie de “toma lá, dá cá”.

A Promotoria investiga, por exemplo, a relação de Neschling com seu empresário, o produtor argentino Valentin Proczynski, que foi contratado para montar dois espetáculos no teatro neste ano – Lady Macbeth e El Amor Brujo. Durante as réstias desse segundo espetáculo, feitas em junho, nem o maestro nem o produtor estavam no País.

Outro lado. O ex-secretário de Cultura Juca Ferreira (que também foi ministro da Cultura do governo Dilma Rousseff) não foi localizado pela reportagem. Em depoimento aos promotores, ele confirmou que assinou as autorizações para pagamentos de aditivos, mas que desconhecia o esquema de corrupção. Em entrevistas, disse que se sentiu “traído” por Herência. O secretário Briguglio informou que já prestou todos os esclarecimentos à CPI do Teatro Municipal. Os advogados de John Neschling afirmam que as acusações não têm credibilidade e ele nunca se envolveu em ilícitos. Os advogados de Nacked informaram que “vão se manifestar apenas nos autos do processo”.

Nesta quarta-feira, 24, a CPI pretendia fazer uma acareação com os investigados. A medida foi cancelada porque Neschling e Nacked não compareceram. O produtor da Olhar Imaginário também não.

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Em nota enviada por Juca Ferreira ao Estado, na tarde desta quinta-feira, o ex-secretário destaca que teve a confiança traída e não tomou contato ou notícia de qualquer malfeito na administração enquanto foi secretário de Cultura. 

Leia a íntegra da nota: 

A notícia "Acusado de fraude no Municipal fecha delação e cita ex-secretário de Cultura", veiculada pelo jornal O Estado de S. Paulo, destaca em seu título que um dos réus confessos do esquema de corrupção que se organizou no Theatro Municipal de São Paulo teria citado meu nome em seu processo de delação. A própria leitura atenta da matéria, porém, ressalta "Ferreira não sabia do esquema de corrupção e autorizava os pagamentos por confiar na administração de Herência". O teor não difere daquilo que afirmei em audiência pública na CPI da Câmara dos Vereadores de São Paulo e também ao Ministério Público Estadual, de que tive minha confiança traída, sem jamais ter tomado contato ou notícia de qualquer malfeito na administração enquanto fui secretário de cultura. Eventuais repasses ou aditivos contratuais autorizados foram realizados mediante a apresentação das documentações técnicas exigidas pelo conjunto do governo, em situações regulares do exercício da administração pública municipal. Além disso, cabe destacar que não recebi contato, em nenhum momento, do jornal o Estado de São Paulo.

 

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