Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Acusação de PMs ouve perito em julgamento do caso do Carandiru

Osvaldo Negrini Neto manteve versão e disse que trabalho da perícia foi dificultado pela Polícia Militar

Luciano Bottini Filho, O Estado de S. Paulo

17 Março 2014 | 16h40

Atualizada às 18h10

SÃO PAULO - A acusação dos dez PMs julgados nesta segunda-feira, 17, no caso do Carandiru dispensou uma testemunha e terminou de tomar o depoimento do perito Osvaldo Negrini Neto. Por volta das 16h30, encerravam-se também as oitivas das testemunhas de defesa.

Negrini permaneceu no fórum depois que os advogados dos réus pediram para que ele permanecesse para eventuais questionamentos. O perito aposentado manteve a versão dada nos outros dois julgamentos na qual a PM dificultou a entrada da perícia na data dos assassinatos, em outubro de 1992.

A testemunha afirmou que havia sinais de que os detentos foram alvejados por rajadas de metralhadora, que foram posicionadas para dentro das celas. "Isso se deve à grande quantidade de disparos e à distância constante entre um tiro e outro", disse Negrini.

Além disso, de acordo com o perito, as marcas na parede estavam aglutinadas e tinham resquícios de cobre, compatíveis com projéteis de metralhadoras. Segundo a testemunha, as marcas de tiros dentro das celas mostram que houve disparos contra os presos. "Podemos supor com uma segurança muito grande que esses buracos que aparecem dentro das celas eram dos tiros que acertaram as vítimas", disse.

A acusação tentou desqualificar a perícia questionando se Negrini havia documentado todo o encaminhamento do material recolhido para análise. Negrini respondeu que, como perito, tinha fé pública e podia fazer o transporte das provas pessoalmente.

Defesa. Como testemunhas de defesa, foram ouvidos o juiz corregedor dos presídios da capital na época do crime, Fernando Torres, e o agente penitenciário, Maldinei de Jesus. o primeiro afirmou que uma sindicância constatou que a entrada da PM era necessária, mas "houve excessos". A outra testemunha disse que nunca foram encontradas armas de fogo dentro do pavilhão nos dois anos que trabalhou lá e que os presos mais perigosos ficavam em outras áreas do Carandiru, que não no local onde ocorreram as mortes.

Réus. No final da tarde desta segunda-feira, 17, começaram a ser ouvidos os réus do julgamento do Carandiru. Os dois primeiros negaram que estavam no quarto andar, local sobre o qual está sendo feito o julgamento. Eles alegam que participaram da evasão do Carandiru no terceiro andar.

O primeiro PM a ser interrogado foi Wanderley Mascarenhas de Souza, que era o comandante do Gate (Grupo de Ação Tática Especial) no dia das mortes. Ele respondeu somente às perguntas do juiz e exerceu o direito de ficar calado diante da defesa e acusação. Segundo ele, a sua tropa foi chamada para desarmar explosivos porque havia suspeita de que houvesse bombas nas barricadas montadas pelos detentos. "Tenho certeza, pelo número de escadas que subi, que minha tropa não atuou no local que estou sendo acusado neste momento", disse.

Ainda foi ouvido o major Marcelo, tenente das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar na época do massacre. Ele que negou que estava no último andar do pavilhão. Outros oito réus ainda serão interrogados.

Julgamento. A quarta etapa do julgamento do massacre do Carandiru começou na manhã desta segunda-feira, 17. A etapa anterior havia sido interrompida quando o advogado dos policiais envolvidos no caso, Celso Vendramini, se ausentou do júri.

Nesta segunda-feira, Vendramini disse que não pretende deixar o plenário no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo. O defensor representa desta vez 12 policiais do Grupo de Operações Táticas especiais (Gate), julgados pela morte de dez detentos e pela tentativa de homicídio de outros três no quarto andar do Pavilhão 9 da extinta Casa de Detenção.

Entenda. O Massacre do Carandiru aconteceu no dia 2 de outubro de 1992, quando 111 detentos foram mortos e 87 ficaram feridos durante invasão policial para reprimir uma rebelião no Pavilhão 9, na zona norte de São Paulo.

Por envolver grande número de réus e de vítimas, o júri foi desmembrado em quatro etapas, de acordo com o que aconteceu em cada um dos pavimentos do pavilhão.

Na primeira etapa do julgamento, em abril do ano passado, 23 policiais foram condenados a 156 anos de prisão pela morte de 13 detentos. Em agosto, na segunda etapa, 25 PMs foram condenados a 624 anos de reclusão pela morte de 52 presos.

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