Acusação: acordos com tráfico e milícia

Os 27 policiais presos ainda são suspeitos de negociar armas, proteger prostituição e roubar moradores; 2 delegacias foram vasculhadas

MARCELO AULER, PEDRO DANTAS e MÁRCIA VIEIRA, O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2011 | 00h00

A Polícia Federal, a Secretaria de Segurança Pública e o Ministério Público do Rio desencadearam ontem a Operação Guilhotina e prenderam 35 pessoas, incluindo 27 policiais - 19 militares e 8 civis, todos suspeitos de envolvimento com traficantes e milicianos. Um dos presos é o delegado Carlos Alberto Oliveira, ex-subchefe operacional da Polícia Civil e até ontem subsecretário de Operações da Secretaria Especial de Ordem Pública da prefeitura do Rio.

Outros dez mandados de prisão não haviam sido cumpridos até o início da noite. Em entrevista ao Estado, o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, informou que novas operações vão acontecer e disse que as investigações contra policiais continuam. "No momento em que se tem uma operação dessas, eu ouço 45 pessoas e faço algumas ligações. Isso vai embora... E é para isso que eu estou preparado", afirmou. "Quero que o policial se sinta supervisionado. É uma mudança estrutural", disse.

No início da semana, Beltrame criou a Superintendência da Contrainteligência e entregou ao delegado Cláudio Ferraz, que atuava na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas, a missão de investigar policiais. "Nós tínhamos desafios nos primeiros anos que já estão postos: UPP, ISP, plano de metas. A sociedade quer outro desafio. Esta etapa vai ser pior do que a primeira. Eu não vou poder deixar de abordar assuntos internos", afirmou Beltrame.

Durante a operação, da qual participaram 580 policiais, foram vasculhadas duas delegacias - 17.ª DP, em São Cristóvão, e 22.ª DP, na Penha, ambas na zona norte -, onde trabalhavam alguns dos presos. Um grupo de mergulhadores da PF procurou, sem sucesso, corpos de possíveis vítimas de milicianos no Piscinão de Ramos e no píer do Iate Clube, no mesmo bairro.

Todos os policiais que tiveram prisão temporária decretada pela 32.ª Vara Criminal são acusados de negociar armas, drogas e informações com traficantes, de darem sustentação a grupos de milicianos, de venderem proteção e segurança a casas de prostituição e de roubarem moradores e marginais nas comunidades onde realizavam operações de repressão ao tráfico.

O delegado Carlos Alberto Oliveira foi citado em alguns telefonemas grampeados com ordem judicial e, embora não seja considerado chefe do grupo, segundo o superintendente da Polícia Federal do Rio, delegado Angelo Gioia, há provas que o ligam a policiais corruptos.

O chefe de Polícia Civil, Allan Turnowski, foi interrogado pela PF como testemunha, por conta de sua relação com Oliveira: eles trabalham próximos há dez anos. No Ministério Público, há quem questione se ele desconhecia as relações criminosas de seu ex-subchefe operacional. Ao deixar a sede da PF, Turnowski disse, porém, que não vê razão para deixar o cargo. "Isso depende do secretário e do governador. Não tem motivo para sair. Não é o momento de sair do cargo", afirmou. À tarde, o secretário Beltrame garantiu sua permanência.

Razões. A operação começou em setembro de 2009, após uma ação frustrada na Favela da Rocinha, causada por um vazamento de informações. Já durante a ocupação do Complexo do Alemão, em novembro, escutas telefônicas mostraram policiais recebendo informações de locais onde traficantes escondiam armas e drogas. Eles foram filmados entrando nesses endereços e, ao saírem, levavam na mochila o material apreendido, que não foi entregue nas delegacias.

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