Açúcar vira areia com conivência de policiais

Esquema milionário adulterou toneladas que seriam levadas por navios do Porto de Santos; Corregedoria acha irregularidades nos inquéritos

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

A Corregedoria da Polícia Civil abriu inquérito para investigar um esquema milionário de desvio de toneladas de açúcar no Porto de Santos (SP). A fraude foi descoberta pelo Ministério Público Estadual. Ele constatou irregularidades nos inquéritos da Delegacia do Porto, o que levou ao afastamento de dois delegados. Os criminosos misturavam areia ao açúcar ainda não refinado, exportado pelo País.

O esquema provocou a volta ao Brasil de dois navios com açúcar recusados pelos compradores. Entre as vítimas estão os maiores exportadores de açúcar do País: a Cosan e a Copersucar. Os bandidos atuariam desde 2006. A mistura do açúcar com a areia ocorreria quando o caminhão chega ao porto, durante a pesagem da carga. Ali, os reboques seriam trocados por outros com a mercadoria batizada.

O açúcar despertou mais a atenção dos bandidos em 2009, quando a cotação do produto no mercado internacional bateu o recorde dos últimos 30 anos, chegando a US$ 0,30 por libra (o equivalente a 453 gramas) - hoje está em US$ 0,15. Em um dos casos investigados, a promotoria descobriu que um fiscal de balança participava da fraude. A carga de oito caminhões teria sido adulterada e, apesar de o suspeito confessar o crime, ninguém foi indiciado pela polícia. Pior, o material apreendido, o carregamento adulterado, teria sumido.

A Corregedoria da Polícia Civil fez uma correição extraordinária (fiscalização) na Delegacia do Porto. Os corregedores descobriram que, de uma carga de 36,5 toneladas de açúcar batizado, a delegacia apreendeu só um saco do produto para análise. Em outro caso, de 26 toneladas, a delegacia mandou analisar quatro vidrinhos e dois sacos.

Os policiais da delegacia alegaram que só apreendiam amostras porque, quando apanhavam açúcar, recebiam telefonemas de autoridades para liberar as cargas. Entre as autoridades que os pressionavam havia funcionários municipais, policiais e jornalistas, que diziam que o açúcar disseminaria insetos e ratos. Para a Corregedoria, a carga inteira devia ser apreendida. Por fim, a delegacia devia recusar interferências no trabalho. Dois delegados foram afastados.

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