'Acreditava que eles mudariam', diz Lancelotti após extorsão

Padre foi chantageado durante três anos por jovens, tendo pago R$ 50 mil; criminoso foi preso em flagrante

Bruno Paes Manso,

16 de outubro de 2007 | 21h17

Visivelmente emocionado, com o olhar perdido enquanto falava, o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Menor, passou nesta terça-feira, 16, por uma sessão de entrevistas para explicar a chantagem da qual foi vítima. Durante três anos, o padre pagou a uma quadrilha R$ 50 mil. - Padre Julio Lancelotti é vítima de extorsão em SP, diz polícia A extorsão, porém, terminou no último dia 6 de setembro, quando o ajudante Everson dos Santos Guimarães, de 26 anos, foi preso em flagrante após receber R$ 2 mil do religioso.A prisão dele foi feita na zona leste de São Paulo. O padre sofria ameaças de morte e também era ameaçado de ser denunciado sobre abusos sexuais a menores pelo grupo. De nacordo com a polícia, Guimarães agia com Anderson Marcos Batista, sua namorada, Conceição Eleutério, além de Evandro Guimarães, irmão de Everson. A Justiça decretou a prisão preventiva dos três acusadosLeia, abaixo, a entrevista de Júlio Lancelotti:Como conheceu o Anderson? Conheci há sete anos quando fui fazer uma visita a uma unidade de alta contenção da Febem no Tatuapé. Ele estava trancado na cela e gritou, chutou a porta, porque queria que eu conversasse com ele. Tinha problema de disciplina e disse que tinha apanhado. Quando saiu, ele me procurou porque não tinha onde morar, não tinha trabalho. Eu o ajudei a arrumar emprego em uma frente de trabalho.Houve ameaça nessa época?Não. Ele seguiu o caminho dele, trabalhou. Depois da união com a nova companheira (Conceição), de uns três anos para cá, as coisas foram se tornando tensas.Como eram as ameaças?Todo tipo de constrangimento. Eu ia sair de casa, tinha um carro parado na porta. Uma vez ameaçaram invadir minha casa com um carro. Fiquei horas para dissuadi-los. Tocavam a campainha de casa não sei quantas vezes. Deixavam dez recados de uma vez no celular. Eu ficava empurrando para frente. Quanto eles tinham dívidas e precisavam de dinheiro, voltavam à carga.Eles ameaçavam dizer que o senhor abusou sexualmente de jovens da Febem?Isso aconteceu duas vezes, principalmente nos momentos em que ficavam mais desesperados. Principalmente ela. Usando o próprio filho deles. Eles tinham um filho que morreu com 3 anos em um acidente não esclarecido, quando o carro recuou e atropelou a criança e a matou na casa deles. Eles ameaçavam dizer que eu tinha abusado do filho deles.Por que o senhor deu dinheiro a eles por tanto tempo em vez de denunciar à polícia?Eu acreditava que podia conseguir que mudassem. Perguntava como podiam me ameaçar usando o nome do próprio filho. Um dia eu falei para ele: ‘O que vocês estão fazendo comigo? Estão me causando um cansaço enorme. Estou cansado de viver.’ Ele disse: ‘Ah, você está cansado de viver? Então a gente pode tomar providências.’Parte do dinheiro era para pagar prestação de uma Pajero. Não era o caso de recusar? Eu contestava. Dizia que não havia condições. Mas ele ameaçava: ‘Vamos ter que dar um jeito, vai ter que acontecer.’O senhor se arrepende de ter prolongado esse relacionamento?Eu sinto que procurei sempre tocar no coração deles para que mudassem. Falei a eles que nem aqueles que são os meus inimigos mais fortes conseguiram me atingir. Eu dizia: ‘Vocês estão destruindo dentro de mim a esperança, a alegria e a vontade de viver.’Como isso mudou a forma que o senhor encara a questão social?Hoje vejo que tenho que ser mais perspicaz para perceber as pessoas, mas cuidadoso na forma de agir. E tenho um olhar mais entristecido para essa realidade.

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