Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Ações da Sabesp na mídia para economia de água foram barradas

Em áudios obtidos pelo 'Estado', Dilma Pena admite que 'superiores' não permitiram campanhas sobre consumo racional; diretor desabafa e diz que colegas terão de tomar banho com 'água mineral'

Fábio Fabrini e Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2014 | 11h59

Atualizado às 16h

BRASÍLIA - A presidente da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), Dilma Pena, admitiu em uma reunião interna da companhia que seus "superiores" barraram ações na mídia para estimular a população de São Paulo a economizar água. Em áudios obtidos pelo Estado, a executiva diz que gostaria de informar aos paulistas "reiteradamente" sobre a necessidade de consumo racional, mas tem de seguir orientação contrária.

A gravação, de um minuto e 18 segundos, é de uma discussão administrativa entre a diretoria da Sabesp e o Conselho de Administração sobre estratégias de comunicação. Durante o encontro, Dilma diz que a companhia de abastecimento deveria aparecer mais na mídia, em veículos como rádios comunitárias, o que não estava ocorrendo contra sua vontade. 

"Acho que, por uma orientação superior, a Sabesp tem estado muito pouco na mídia. Acho que é um erro", reclamou, citando os superintendentes da empresa e ela própria como potenciais porta-vozes.

Segundo ela, a mensagem "Cidadão, economize água" deveria estar "reiteradamente na mídia". "Mas nós temos de seguir a orientação. Nós temos superiores. A orientação não tem sido essa. Mas é um erro, é um erro", repetiu.

Ouça abaixo a fala da presidente da Sabesp, Dilma Pena:

Questionada, a Sabesp confirmou a reunião, mas não quis precisar a data e quem seriam os superiores. O Estado apurou que ela ocorreu em agosto.

A presidente da empresa diz estar ciente de que a estratégia de comunicação é equivocada. Na gravação, a palavra "erro" é repetida quatro vezes ao se referir à falta de divulgação. "Tenho consciência absoluta e pauto as pessoas com quem eu converso sobre esse tema, mesmo os meus superiores", insistiu ela.

Mas em fevereiro deste ano, a Sabesp lançou o programa de bônus para estimular a população a economizar, remanejou água de outros sistemas, incluindo Alto Tietê e Guarapiranga, e reduziu a pressão da água na rede à noite. A ação de comunicação da Sabesp incluiu, assim, o estímulo a medidas de restrição de consumo de água, que já vinham sendo discutidas.    

Nos últimos dias, a crise da água entrou na propaganda de TV da presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, com o objetivo de desgastar o modelo de gestão tucana e recuperar terreno no eleitorado paulista. No horário eleitoral, a presidente ligou o PSDB do adversário Aécio Neves à falta de planejamento. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) foi reeleito no primeiro turno, no último dia 5. 

Em sua propaganda, Dilma Rousseff disse que o PT está "há dez anos" alertando o PSDB sobre o problema. "É preocupante e também muito triste saber que os brasileiros que vivem em São Paulo, Estado mais rico do país, estão passando por uma crise de falta de água sem precedentes na sua história", comentou a candidata do PT.

No último dia 15, em depoimento à CPI da Sabesp na Câmara Municipal, Dilma Pena afirmou que a empresa tem disponibilidade suficiente para abastecer a população até meados do mês que vem.

Dilma participou apenas da primeira parte da reunião, quando foi discutida a estratégia de comunicação da companhia. Em outro trecho de gravação obtido pelo Estado, da segunda parte do encontro, quando Dilma estava ausente, o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, reconheceu que o governo enfrenta "ações desafiadoras" para prolongar a vida útil do Sistema Cantareira e "esticar um pouco mais" o abastecimento de água.

Ouça abaixo a fala do diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato:

"(...) Porque se repetir o que aconteceu este ano, de final de 2013, de outubro pra cá, se voltar a repetir em 2014, confesso que não sei o que fazer, tá certo?", desabafou o diretor, definindo a situação como "uma agonia".

Ele desabafou aos presentes que deveriam sair de São Paulo e tomar banho com "água mineral" ou na casa de parentes. "Não vai ter água para o banho, não vai ter água para a limpeza da casa. Quem puder compra garrafa água mineral, tá certo? Quem não puder, vai tomar banho na casa da mãe, lá em Santos, lá em Ubatuba, em Águas de São Pedro, sei lá. Aqui não vai ter", adiantou. 

Esclarecimento. Procurada pelo Estado, por telefone, Dilma reagiu, com tom de irritação: "Isso não existe. Isso aí é uma coisa muito complicada. Não sei do que você está falando". Em seguida, pediu para que questionamentos fossem feitos a assessores de comunicação. 

A assessoria de imprensa da Sabesp informou, em nota, que o objetivo da reunião de Dilma "foi de ampliar ao máximo as ações de comunicação para o uso racional da água junto aos funcionários da companhia". A empresa alegou que sua comunicação é feita "de forma autônoma", com decisões tomadas "no âmbito da companhia". 

"Naquele momento, a diretoria da Sabesp discutia com o conselho de administração (órgão superior) a estratégia de comunicação", acrescentou.

Sobre as declarações do diretor, a Sabesp informou que, também naquele momento, "a diretiva era diminuir ao máximo a dependência do Sistema Cantareira".

"O contexto era de convencer, de forma contundente, os gerentes operacionais da companhia da necessidade de redução. A estratégia tem dado certo. A dependência do Cantareira diminuiu de 9 milhões para 6,5 milhões de pessoas, uma redução de cerca de 30%", explicou.

Em nota, o governo de São Paulo afirmou que nunca vetou qualquer alerta sobre a crise hídrica. "Ao contrário, o próprio governador concedeu mais de uma centena de entrevistas coletivas, desde fevereiro, para salientar a gravidade da maior seca já registrada na história."

Segundo o governo estadual, "nessas entrevistas, que podem ser facilmente localizadas nos arquivos de qualquer veículo de comunicação, o governador tem pedido a colaboração da população no uso racional da água e repetido à exaustão o fato de que choveu, neste ano, a metade do volume verificado em 1953, no qual se registrara, então, a maior estiagem".

Na nota, o governo disse que as gravações não mencionam a palavra "alerta", que, na avaliação do governo, foi usada "irresponsavelmente" em algumas matérias.

"Tampouco mencionam o governo do Estado de São Paulo. Cabe à Sabesp, empresa autônoma da administração indireta, composta por uma diretoria e um conselho de administração, esclarecer as circunstâncias e o sentido das frases gravadas e vazadas seletivamente a dois dias das eleições."

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