'Acho que encostavam ele num canto e deixavam', diz cunhado de autista abandonado em SP

Adolescente de 17 anos foi esquecido em centro de reabilitação de Taboão da Serra e ficou mais de cinco horas trancado sozinho

25 de setembro de 2012 | 15h49

SÃO PAULO - Depois de ser esquecido no escuro por mais de cinco horas no Centro de Reabilitação Social (CRS) de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, na noite de segunda-feira, o jovem autista M., de 17 anos, enfrentou uma noite agitada e teve dificuldades para dormir, disse seu cunhado. O músico Renato Martins de Oliveira, de 28 anos, que vive com M. há quatro, contou que o garoto só pegou no sono às 4h. Depois de uma noite cansativa - compareceu à delegacia com a família -, passou a tarde desta terça-feira desenhando, e não fez nenhuma menção ao que ocorreu.

Oliveira mora com M., a mulher, Ariane Alves Moreno, de 20 anos, outro irmão de M., de 19 anos, e os pais do jovem: o metalúrgico Amilton Carlos Moreno, de 45 anos, e a dona de casa Marina dos Santos Alves, de 42 - ambos surdos-mudos.

O músico conta que a família vinha tentando uma escola especial para o adolescente há pelo menos quatro anos, e só conseguiu uma vaga no CRS na semana passada. O jovem vinha frequentando o lugar às segundas e quintas, das 13h às 17h30, e estava em sua terceira aula quando foi abandonado. Depois do que ocorreu, a família diz se sentir insegura em deixá-lo novamente no centro. "A impressão que dá é que ele fica encostado num canto", diz Oliveira. "Queríamos justamente o contrário, que ele convivesse com outras pessoas". Veja entrevista com o cunhado de M. abaixo:

Como ele passou a noite?

Renato: Ele dormiu bem tarde, está com cara de sono aqui na minha frente (em casa, por volta da 13h30). Acabou indo dormir umas 4h, depois que fomos à delegacia. Ficou muito agitado, mas está mais calmo agora. Está rabiscando uns desenhos que costuma fazer.

O que a família pretende fazer depois do que ocorreu?

R: A gente não sabe. Procuramos um lugar há muito tempo e agora que finalmente conseguimos, acontece isso. Ele estava no terceiro dia de aula. Por ele ser uma pessoa especial, que precisa de muita atenção, a gente fica meio assim. Se não conseguiram dar atenção para ele, imagina com tantos outros que estão lá. Achei que encostaram ele lá e esqueceram, tanto que quando a Guarda Civil chegou estava na recepção.

Como é a rotina dele?

R: Das 12 horas do dia,10 ele passa sentado no sofá, sem fazer nada. Fica rindo à toa, batendo na parede. Cantarola quando ouve uma música. É muito antissocial, mas ao mesmo tempo não pode ficar sozinho. Teve ocasião em que chegou a se morder, se arranhar, pegar faca. Precisa de ajuda até pra ir ao banheiro. Todo mundo contribui um pouco em casa, vamos revezando, mas não dá pra ficar 24h de olho.

Os responsáveis pelo CRS entraram em contato com a família depois do que aconteceu?

Nada.

Ele manifesta algum medo de voltar para o Centro de Reabilitação?

R: Ele não consegue se expressar, mas pelo que o conheço, creio que se chegarmos lá, não vai querer ficar. Quando ele fica cismado com uma coisa, é difícil convencê-lo. Já tínhamos muita dificuldade para levar ele a passeios, tirá-lo de casa.

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