Achava que tinha sido perdoado pelo mundo do crime

Ex-PM se converteu dentro de presídios, mas na igreja manteve o traço controlador do tempo das mais de 50 execuções

BRUNO PAES MANSO, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2012 | 03h04

Um mês depois de deixar a prisão, na noite do último domingo, o ex-policial militar Florisvaldo de Oliveira, conhecido como Cabo Bruno, concedeu sua última entrevista. A conversa foi breve. Ele tinha acabado de se tornar pastor da Igreja Refúgio em Cristo, em Taubaté, em uma cerimônia acompanhada pelo Estado. Quatro dias depois, ele seria assassinado com 18 tiros, aos 53 anos.

Florisvaldo acreditava que havia sido perdoado pelo crime. "Não creio que eu corra risco de vida", afirmou, pedindo, na ocasião, para que a conversa não fosse publicada. "Antes de sair, me foi passada a informação de que o Primeiro Comando da Capital fez um debate para discutir o que seria feito comigo. As lideranças disseram para não fazer nada. Hoje, sou outra pessoa, e o crime respeita aqueles que mudam", afirmou.

Florisvaldo ainda reclamou da imprensa, que repetia com insistência que ele seria visto como um troféu para o PCC. "Parece que os jornalistas querem instigar", disse. A reportagem afirmou que ele continuava fisicamente parecido com o jornalista do Estado Fausto Macedo, o único repórter que o entrevistou antes de sua prisão, em maio de 1982, quando Cabo Bruno era o justiceiro mais temido da zona sul e que havia executado mais de 50 pessoas. "Mande um abraço ao Fausto."

Para assistir ao culto em que Cabo Bruno virou pastor, a reportagem havia pedido autorização, na semana anterior, à mulher dele, Dayse França. Ao ver o jornalista pela primeira vez, Florisvaldo avisou que não falaria do passado. Autorizou as fotos e depois convidou os participantes do culto para jantar.

A cantora evangélica e pastora Dayse França, que casou com ele em 2008 dentro do Presídio de Tremembé, disse que a fé do marido já havia sido testada seis meses depois de ele se converter, no começo dos anos 1990. "O Bruninho, filho dele de 7 anos, disputou uma pipa com outro garoto e foi jogado dentro de um poço. Só foi encontrado dias depois, já morto. Mesmo assim, ele seguiu firme na igreja", disse.

Controlador. Durante as duas horas e meia em que durou o culto, Florisvaldo mostrou um pouco da personalidade que o acompanhou por toda a vida: uma atitude perfeccionista e controladora, atenta o tempo todo para evitar que a situação fugisse ao seu controle.

Ficava sempre de olho no relógio, enquanto pastores, ex-presidiários e carcereiros falavam a respeito de sua transformação. Quando a fala ultrapassava cinco minutos, ele pedia para o orador se conter. "Lá vem você de novo pedindo para a gente não ultrapassar o tempo definido", brincou o pastor Ailton Franco da Motta.

Foi essa mesma personalidade controladora que, no contexto violento dos anos 1980, começou a matar em 1982, aos 23 anos, como soldado da Polícia Militar, acreditando que dessa maneira conseguiria controlar o crescimento dos crimes contra o patrimônio em Pedreira e nos bairros vizinhos da zona sul. Ele praticava os assassinatos nos dias de folga e acabou sendo expulso da polícia. Foi preso em 1983.

A mesma prática foi seguida por outros justiceiros em todas as regiões da periferia da cidade. Morriam aqueles que os matadores acreditavam ser suspeitos de ser criminosos. Bancados por comerciantes, diziam matar "bandidos" em defesa dos "trabalhadores". Além de Cabo Bruno, na zona sul, Chico Pé de Pato agia na zona leste, Rivinha atuava na zona norte, e Esquerdinha, em São Bernardo do Campo, entre outras dezenas de justiceiros.

Depois de preso, Cabo Bruno chegou a fugir da prisão por três vezes. A partir de 1991, começou a receber visitas da missionária Alaíde Pereira que, em 1991, foi a primeira pessoa a sugerir que Florisvaldo mudasse de vida, ainda no Centro de Custódia de Taubaté. Segundo ela, foi à procura de Bruno depois de "ouvir um chamado".

O justiceiro que afirmava "não gostar dos crentes" começou a ceder aos poucos. Passou a coordenar os cultos e construiu uma pequena igreja no Presídio de Tremembé, para onde foi transferido em 2002. O controlador era também um executor e metia a mão na massa. Construiu o prédio da igreja, o púlpito e os demais móveis.

No domingo, na noite em que virou pastor, ele beijou no rosto os homens presentes. Estava sorridente e parecia leve. Magro e franzino, com o terno um número acima de seu corpo, parecia frágil.

Os testemunhos garantiam que, de fato, ele havia mudado. O mundo, contudo, continuaria o mesmo. Não aceitou a mudança do ex-justiceiro, que morreu anteontem, com 18 tiros.

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