Abstinência remunerada

Pagar um homicida para ele parar de matar. Essa é uma ideia estranha. Estamos habituados a punir atitudes indesejáveis e a recompensar o bom comportamento. Mas em ciência o resultado é muitas vezes contra-intuitivo. Um experimento recente, cuidadosamente desenhado, demonstrou que a maneira mais eficiente de combater um assassino é pagar para que ele pare de matar.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2015 | 20h58

O mais letal dos produtos legais, responsável pela morte de metade dos seus usuários, e de parte das pessoas que convivem com seus consumidores, é o tabaco. Atualmente, a principal forma de combate é a punição. Ela pode ser financeira: cada aumento real de 50% no preço reduz em 20% o consumo. Mas também pode ser emocional: imagens grotescas em maços de cigarro e informações sobre câncer, impotência e enfisema pulmonar funcionam.

Nesse experimento, os cientistas decidiram avaliar o uso de recompensas financeiras para induzir fumantes a largar o vício. A ideia é que largar o fumo é uma atitude positiva que pode e deve ser recompensada. 

O experimento foi feito com empregados de uma empresa nos EUA. Primeiro, o site da empresa anunciou um programa para ajudar os fumantes a largar o cigarro. Aproximadamente 4,5 mil voluntários se inscreveram. Após eliminar pessoas que fumavam pouco ou há poucos anos, foram selecionados 4.017 voluntários que deviam responder um questionário e enviar documentos. Somente 2.538 pessoas terminaram esse processo. 

Por sorteio, essas pessoas foram divididas em 5 grupos, cada um com aproximadamente 500 fumantes. Ao primeiro grupo foi oferecido o programa clássico, com acesso a informação, remédios e aconselhamento. O segundo grupo foi informado que receberia US$ 200 após ficar 14 dias sem fumar, mais US$ 200 após 30 dias, e mais US$ 400 se continuasse sem fumar ao final de 180 dias. Além disso, receberiam US$ 20 em cada etapa se fizessem um teste de sangue para verificar se haviam ou não fumado. O terceiro grupo recebia o mesmo incentivo do segundo, mas, para tentar aumentar o comprometimento, era pedido às pessoas que depositassem US$ 150 em uma conta no início do programa. O dinheiro era devolvido após 6 meses, mesmo se a pessoa voltasse a fumar. Os outros dois grupos eram semelhantes ao segundo e ao terceiro, mas os voluntários eram organizados em grupos de 6 pessoas, que eram remuneradas pelo sucesso do grupo e não do indivíduo. A ideia é que as pessoas ajudariam umas às outras. A remuneração total para cada voluntário, nos quatro programas, era igual.

Feito isso, era solicitado às pessoas que decidissem a data em que iriam iniciar o programa. Primeiro foi medido o número de fumantes que iniciaram o programa. Esse número foi de ~90% nos grupos que somente receberiam dinheiro, mas foi bem menor (~14%) nos grupos que tinham de depositar US$ 150. Após seis meses, somente 6% das pessoas que iniciaram o programa normal (informação mais remédios) continuavam sem fumar. Entre os que haviam recebido US$ 200 em cada etapa, ~15% continuavam sem fumar. Já entre os que haviam depositado os US$ 150 no início, 10% haviam largado o fumo. O resultado foi igual quando as pessoas eram recompensadas pelo esforço grupal ou individual.

Finalmente, os voluntários foram testados novamente 6 meses após o término do programa para verificar quantos ainda se mantinham sem fumar. No grupo-controle, ~3% haviam deixado de fumar. Entre os que receberam pagamentos, ~8,5% haviam deixado o fumo e, entre os que tinham feito o depósito, o resultado foi semelhante ao obtido no grupo-controle (~5%).

Esses resultados demonstram que recompensar financeiramente o fumante para que ele deixe de fumar é uma ótima maneira de engajar as pessoas. Das que se engajam, 15% deixam de fumar por seis meses e, dessas, pouco mais da metade continua sem fumar após um ano. Esses resultados também sugerem que a atuação em grupo não melhora o resultado e que penalizar o fumante no início diminui a taxa de adesão. 

Na verdade, como o ato de fumar não somente leva seu praticante à morte, mas aumenta a mortalidade dos fumantes passivos, esse programa de remuneração não somente paga para a pessoa não se suicidar, mas remunera a pessoa por parar de matar seus familiares e amigos. É estranho que tenhamos de pagar por isso, mas que funciona, funciona.

MAIS INFORMAÇÕES: RANDOMIZED TRIAL OF FOUR FINANCIAL-INCENTIVE PROGRAMS FOR SMOKING CESSATION. N. ENG. J. MED. VOL. 372 PAG. 2108 2015

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