Fabiana Cambricoli/Estadão
Fabiana Cambricoli/Estadão

Abrigo municipal para de receber imigrantes

Superlotado, espaço da Prefeitura está com o dobro de hóspedes de sua capacidade. Baixa oferta de emprego faz crescer nº de haitianos

Fabiana Cambricoli, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2014 | 03h00

SÃO PAULO - Criado para atender de forma emergencial aos imigrantes haitianos recém-chegados a São Paulo, o abrigo montado pela Prefeitura no Glicério, na região central, passou a recursar novos hóspedes nesta semana, após o número de abrigados chegar ao dobro da capacidade do espaço. Segundo a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, o local tem capacidade para 150 pessoas, mas, nesta quinta-feira, 10, abrigava 301 imigrantes - a grande maioria haitianos.

“Quando cheguei, no dia 13 de junho, ainda tinha cama, mas agora muita gente nova chegou e eu estou dormindo em um colchão no chão em um dos quartos”, conta o professor haitiano Wilguens Pierre, de 32 anos.

Na Casa do Migrante, espaço na mesma rua administrado pela Missão Paz, da Igreja Católica, os 110 leitos também estão ocupados, o que faz com que os imigrantes tenham à disposição apenas os abrigos comuns da Prefeitura.

Segundo Camila Baraldi, coordenadora adjunta de Políticas para Migrantes da secretaria, é a primeira vez que o número de hóspedes no abrigo municipal chega a 300. Para ela, o aumento da demanda se deve a dois fatores principais: a chegada de mais imigrantes do Haiti a cada semana e a diminuição das contratações desses estrangeiros no mês passado.

“Em junho, tivemos muitos feriados e as empresas que foram até a Missão Paz procurar trabalhadores não fizeram contratações nesses dias. Isso impediu que tivéssemos maior rotatividade nos abrigos. Quando eles são contratados, vão para as cidades onde trabalharão e recebem alojamento da empresa, abrindo espaço”, diz Camila.

Levantamento da Missão Paz, que auxilia na emissão de documentos e promove feiras de contratação em suas dependências, mostra que os feriados de junho realmente atrapalharam os imigrantes que buscavam trabalho.

“Em maio, recebemos 653 haitianos e 579 foram contratados. Já em junho, chegaram 693 e apenas 391 conseguiram emprego. O número de empresas que vieram fazer seleção aqui caiu de 264 em maio para 39 em junho”, conta o padre Paolo Parise, um dos coordenadores do abrigo católico.

Desde o início do ano, 2.461 haitianos já passaram pelo local em busca de auxílio para a emissão de carteira de trabalho. Mais da metade deles (1.363) conseguiu emprego.

Ônibus vindos do Acre com grupos de haitianos continuam chegando a São Paulo semanalmente. Segundo alguns haitianos ouvidos pelo Estado, a passagem é paga pelo governo do Acre. A assessoria de imprensa local não se pronunciou.

Gana. Embora a grande maioria dos imigrantes abrigados no Glicério seja do Haiti, cidadãos de Gana vêm engrossando a demanda por acolhimento no local nas últimas semanas. Imigrantes do país africano aproveitaram a realização da Copa do Mundo no Brasil para pedir visto como turistas e viajarem ao País. Ao chegarem aqui, deram entrada junto às autoridades brasileiras ao pedido de refúgio político. 

Assim como aconteceu em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde 250 ganeses fizeram a solicitação, São Paulo também tem recebido imigrantes de Gana nessa situação. Somente no abrigo da Prefeitura, há cerca de 40 ganenses.

Entre eles está o engenheiro mecânico Richard Oduro Amponsa, de 41 anos. “Comprei ingresso no site da Fifa para mostrar no Consulado do Brasil em Gana, consegui o visto e cheguei há uma semana. Mas nem sou fã de futebol. Só aproveitei essa oportunidade para fugir do conflito étnico que está acontecendo no meu país. A disputa por terra faz com que a gente tenha que matar irmãos. Não quero fazer parte disso”, diz.

Fechamento. Mesmo lotado, o abrigo provisório terá de ser fechado no próximo dia 28, quando vence o contrato de aluguel feito entre a Prefeitura e o dono do terreno. A administração municipal promete abrir entre agosto e setembro um centro permanente para acolher imigrantes. “Ainda estamos estudando onde vamos abrigá-los no período entre o fechamento do (abrigo) provisório e a abertura do permanente. Uma das possibilidades é renovar o contrato de aluguel”, diz.

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