Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

'Abolição' da gravata no Direito da USP faz 40 anos

Obrigatoriedade, que valia também para paletó, acabou após manifesto do centro acadêmico; hoje, bermuda e camiseta são comuns

Felipe Tau, Jornal da Tarde

28 de fevereiro de 2012 | 22h41

SÃO PAULO - No dia 8 de março, será comemorado o 40.º aniversário da abolição da “esgravatura” na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo São Francisco, centro de São Paulo. O termo, cunhado por alunos e professores de uma das faculdades mais tradicionais do País, marca o fim da obrigatoriedade de usar paletó e gravata no câmpus – decisão histórica tomada em 1972 pelo diretor José Pinto Antunes.

Quem vai hoje à faculdade com trajes informais não imagina a importância da data para os colegas de outros tempos. Aquela quarta-feira foi o primeiro dia em 145 anos da faculdade em que os alunos puderam assistir as aulas sem aperto no pescoço.

A luta pela “abolição” começou em março de 1970, com o Centro Acadêmico 11 de Agosto distribuindo o manifesto Abaixo a Gravata. Dois anos depois, após diversas negativas da diretoria, o pedido do presidente do C.A. na época, Antônio de Gouveia Júnior (1945-2011), foi finalmente aceito pelo diretor Antunes. No decreto, porém, ele advertia: “de bermuda ninguém entra aqui”.

O cenário atual do largo deixaria indignado o diretor, que morreu em 1975. Ontem, dia em que a cidade registrou 32,8ºC, a maior parte dos alunos trajava bermuda e camiseta. “Se tivesse de usar trajes formais em um dia como esse, ia ser duro”, diz o estudante Walter Tarcha, de 22 anos, do 4.º ano, que parou de ir de gravata para a faculdade depois que largou o estágio.

O paletó e gravata era minoria entre os estudantes da turma da manhã mas, entre os professores, a vestimenta persiste. Era o caso do ex-professor da faculdade e ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer. De blazer e gravata, ele contrastava com os calouros de bermuda e camisetas estampadas.

Aluno da turma de 1960, Lafer conta que na sua época nem se pensava em tirar a gravata. Depois de se formar, em 1964, Lafer voltou à faculdade como professor, em 1971, e testemunhou a mudança na vestimenta. “O pessoal de mais tradição ficou um pouco incomodado. Mas era jovem na época, não vi problemas.”

Aluno da última turma a usar terno e gravata, graduada em 1971, o advogado Percy Hackmann, de 64 anos, diz que nem todos os alunos achavam a formalidade ruim. “O paletó e gravata eram quase as nossas becas, mostrava que estávamos em uma das faculdades mais tradicionais do Brasil, tínhamos orgulho de usar”, lembra ele, vice-presidente da associação dos antigos alunos da faculdade.

O advogado Paulo Roberto de Oliveira, de 64 anos, formado no ano da “abolição” da gravata, diz que metade dos colegas da noite deixou de usar o acessório. Embora fizesse parte da outra metade, por trabalhar perto da faculdade, ele apoiou a medida na época. “A gente tem de acompanhar os tempos.”

PARA LEMBRAR

Acessório vem da Antiguidade

Segundo o professor Lázaro Eli, coordenador do curso de bacharelado em Design de Moda do Senac, a gravata, em uma forma mais rudimentar e diferente da que conhecemos hoje, já era usada por egípcios e soldados chineses e romanos antes de Cristo. Servia para proteger e aquecer a garganta, especialmente pelos romanos. Só viria a ter o sentido empregado hoje, de distinção social e acessório de moda, com os soldados croatas, no século 19. Os croatas (ou “croats”, em francês) também inspiraram o nome do acessório.

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