Wilton Junior/AE
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A vitória só de chegar à Sapucaí

Na Portela, União da Ilha e Grande Rio, as histórias de quem refez tudo em 3 semanas e dorme menos de 5h por noite só para apresentar seu carnaval

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

06 Março 2011 | 00h00

O incêndio que consumiu o carnaval da Grande Rio e afetou a Portela e a União da Ilha aconteceu a um mês dos desfiles. Mas a retomada dos trabalhos levou quase dez dias - prazo para que tendas fossem erguidas, como barracões improvisados, e equipamentos retirados dos prédios em ruínas. O Estado acompanhou a rotina pesada de quem teve de reconstruir um carnaval com três semanas de prazo - o carnavalesco, a costureira, o diretor de barracão, o coreógrafo.

Na Portela. As chamas que destruíram o quarto andar do barracão da Portela não assustaram Robson de Souza, de 28 anos, nove na escola de Madureira. Por duas vezes, ele enfrentou a densa fumaça e chegou ao terceiro andar, de onde retirou dinheiro do cofre e computadores. Ao sair do prédio, foi contido pela Guarda Municipal com gás de pimenta. Um policial militar agarrou seu braço e foi ao chão.

Robson responde a processo por desacato, mas salvou croquis de fantasias, projetos de carros alegóricos do enredo sobre o mar e o salário dos funcionários.

Liberado ainda no dia do incêndio, voltou à Cidade do Samba. Diretor de barracão há três anos, ele é uma espécie de gerente-geral do carnaval da Portela - foi também quem organizou a reforma dos carros alegóricos.

Atrás de um balcão, como os de bar, Robson guarda um pedaço de espuma, que faz as vezes de colchão. Dorme ali menos de cinco horas por noite, embalado pelo som de máquinas de corte de tecido e prensas. A todo momento ele é chamado - se falha o gerador instalado na tenda, se um faxineiro insiste em desrespeitar a nova determinação de que o vestiário masculino agora é para as moças, se um marceneiro se machuca na finalização de um dos carros e não tem maca.

Na União da Ilha. Uma frase do samba da União da Ilha, sobre a trajetória de Charles Darwin, inspira a comissão de frente, coreografada pelo bailarino Roberto Lima: "Não sei se é bicho, não sei se é gente." A partir desse conceito, imaginou-se uma fantasia com mecanismos de automação, que custou R$ 350 mil. Tudo foi destruído pelo fogo. "Recomecei do zero", resume Lima. Isso significa desenhar outra fantasia e refazer a coreografia. "Agora a vaidade está em jogo. Somos nossos próprios algozes."

Na Grande Rio. Ela não faz contas. Das 3,3 mil fantasias da Grande Rio destruídas no incêndio, cabe a Therezinha Fernandes Moura, de 68 anos, refazer 500. A quatro dias do carnaval, um auxiliar diz que só 200 estão prontas. Ela se irrita. "O que importa é que vou entregar todas. Nem que leve a última na avenida", promete.

O incêndio destruiu tudo - não sobrou desenho de carro ou croqui de fantasia, nada. O carnavalesco Cahê Rodrigues teve de redesenhar cada adereço. E com simplicidade. Quase um exercício de desapego. Ele tinha tecidos importados, estampas exclusivas, que demorariam 20 dias para chegar ao Brasil. Nos dias seguintes ao incêndio, Cahê se viu percorrendo as ruas do mercado popular da Saara, no centro do Rio.

A grandiosidade dos carros da escola também foi revista. As alegorias foram montadas sobre as bases de carros cedidos pela Inocentes de Belford Roxo e pela Viradouro, com medidas mais modestas.

O carnaval destruído da Grande Rio custou R$ 10 milhões. A segunda versão, R$ 4 milhões. Verba suficiente para algumas pequenas e valiosas extravagâncias - a escola promete uma surpresa, construída em uma sala fechada.

Mas e a frustração de fazer um carnaval "café com leite"? "Quando penso que tinha um carnaval campeão, é claro que fico frustrado. Mas este será o carnaval campeão em superação", resume o carnavalesco.

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