A vida sobre uma árvore em plena 23 de Maio

Com pedaços de madeira, plástico e cobertores, morador de rua fez lar em cima de uma figueira

Juliana Deodoro,

12 de novembro de 2012 | 18h52

Quando era criança, o sonho de Diego Ribeiro de Souza, de 26 anos, era ter uma casa na árvore. Nascido em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, ele foi criado pela avó até os 14 anos e, quando ela faleceu, foi morar na rua. "Eu a chamava de mãe. Depois que ela morreu, meus tios me maltratavam e fugi de casa." Desde então, o único teto sob o qual morou foi o que construiu entre os galhos de uma figueira branca centenária na Avenida 23 de Maio, região central da capital.

A "casa" é pequena: a base, formada por pedaços de madeira e sustentada por ripas, tem pouco mais de um metro de largura por dois de comprimento. As paredes são de cobertores e o teto, de plástico. Diego conta que a moradia - a segunda no mesmo local - ainda é precária, muito diferente da casa que havia construído há mais de dois anos e foi destruída por funcionários da Prefeitura. "Na antiga, tinha uma parede de madeira que deixava ela fechadinha. Pintei tudo de verde e, se você olhava de longe, não percebia que a casa estava entre as folhas", conta.

Além dos dois troncos que sustentam a base, galhos mais finos servem para amarrar os cobertores e pendurar roupas e objetos pessoais. Apesar do armário improvisado, sempre que sai, leva todos os seus pertences na mochila: sabonete, xampu, escova de dente, desodorante, cigarro, isqueiro, escova para lavar roupa e camisinha.

Os motivos para estar ali são simples: "Aqui me protejo da polícia, dos noias e de outros moradores de rua. Era meu sonho mesmo ter uma casa na árvore. Tem dia em que sento ali em cima e viajo... a 23 de Maio subindo e descendo." Outra razão é de ordem prática: há duas bicas de água limpa, nascente e corrente por perto, uma de cada lado da avenida. Ele diz que o barulho do trânsito não o incomoda - "Vira até sinfonia" -, mas seu momento preferido é de madrugada. "É a única hora de silêncio."

Há duas semanas, Diego recebeu uma proposta indecorosa. "Queriam comprar a casa por R$ 500. Fiquei quase ofendido. Para começar, esse aqui é um espaço da Prefeitura. E outra: é a minha casa, não posso vender."

Seus planos para o futuro são modestos. Diego deseja apenas tirar seus documentos e arrumar a casinha, quem sabe ter uma televisão e um fogareiro. "Seria muito bom ter casa própria, mas fui para a rua muito cedo e gosto tanto daqui, não quero sair. Olha essa vista! Todo dia agradeço a Deus por essa árvore", diz, olhando do alto, entre as folhas, para a avenida.

 

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