Clayton de Souza/AE
Clayton de Souza/AE

A vida na estação meteorológica

Saiba como funcionam os dois principais pontos de medição de umidade, vento e temperatura na capital: o Mirante de Santana e o tradicional IAG

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

Os trabalhos nas duas principais estações meteorológicas da cidade não param em fins de semana, feriados, dias chuvosos, frios ou secos. Até porque é desses lugares que vem parte das informações que o paulistano usa todos os dias para decidir se pega o casaco ou o guarda-chuva. Tanto na estação do Mirante de Santana, a oficial da cidade, quanto na do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP - a mais antiga em atividade na capital, desde 1933 -, os trabalhos estão a cargo de gente apaixonada pelo que faz.

Evocado diariamente nos boletins de clima, o Mirante de Santana dá nome à estação meteorológica usada como parâmetro para os índices históricos da cidade, como recordes de baixa umidade e temperatura e comparações de índices de chuvas. São três medições diárias, às 9h, 15h e 21h. "Os horários são definidos por padrões internacionais. A tarefa é coletar no abrigo temperaturas, umidade relativa do ar, evaporação e demais variáveis", explica Marise Basilio Amadei, de 52 anos, que há 33 trabalha como observadora no Mirante. Após a coleta, tudo é registrado em planilhas, codificado e, por telefone, repassado ao Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), órgão ligado ao Ministério da Agricultura.

A estação está no mesmo lugar desde 1945. E é fácil chegar lá: o Mirante fica na Praça Vaz Guaçu, no Jardim São Paulo, zona norte da cidade. É uma praça gramada, de onde é possível ter boa vista da capital. No meio da grama, um cercadinho protege a estação meteorológica, onde estão equipamentos convencionais como termômetros, higrômetro - que mede a umidade relativa do ar -, além de pluviógrafo, que registra a chuva, e anemômetro, que mede o vento. Há também uma estação eletrônica, que envia os dados automaticamente - mas não é levada em conta nos números históricos.

No alto da praça, uma construção serve de escritório aos três observadores que atualmente se revezam na estação. "Já houve épocas em que fiquei sozinha e fazia todos os horários. Mas sei que faço um serviço de utilidade pública, sempre vesti a camisa", diz Marise. Já disseram que ela tem um "caso" com o Mirante, tal seu comprometimento - a brincadeira ganha força quando, no meio de uma festa, por exemplo, ela precisa sair para fazer medições.

Pudera. Marise nasceu no Mirante. A casa do pai, o aposentado Mario Basilio Silva, de 83 anos, fica na praça. Quando ele se mudou para o local, em 1962, não havia nem asfalto, mas a vista compensava. Aos 18 anos, Marise recebeu em casa o convite de trabalho de uma senhora que fazia a observação na estação. Começou e não parou mais. E até o marido acabou envolvido no trabalho - o administrador Luiz Carlos Amadei, de 56 anos, tornou-se companhia diária nas medições. De tanto acompanhar, acabou virando observador no mirante, em 1999, onde permaneceu até 2008.

IAG. Do outro lado da cidade, na Água Funda, zona sul, a estação meteorológica do IAG também tem seu dileto morador. O professor Frederico Luiz Funari, de 74 anos, confere as medições e o funcionamento dos equipamentos de segunda a segunda - mesmo já estando aposentado há 3.

Ele mora desde 1971 em uma casa dentro do Parque Ciência e Tecnologia da USP (Cientec), onde fica a estação. "Já fiquei 40 dias de licença compilando dados meteorológicos. Eu mando bala, não paro no serviço." Nas férias é a mesma coisa, garante ele, que começou como observador, foi pesquisador, lecionou na universidade e, mesmo aposentado, ingressou no pós-doutorado no ano passado.

A estação pertence à USP desde 1947 e o parque foi criado só em 2001. Em 2002, as aulas do IAG foram transferidas para a Cidade Universitária, mas algumas disciplinas ainda são dadas na Água Funda. Quase nada na estação do IAG precisa de energia e os equipamentos pouco mudaram em termos de tecnologia nos últimos tempos. No IAG, entretanto, há medições de temperatura do solo. Além disso, as observações são anotadas de hora em hora, entre 7h e meia-noite. Cinco técnicos se revezam no trabalho.

"Assim, temos mais confiabilidade e precisão. E, se houver problema em algum aparelho, perdemos um intervalo pequeno", explica a meteorologista Samantha Martins, desde 2009 no local. O professor Mario Festa, desde 1969 por ali e responsável pela estação, explica que o equipamento remonta os primórdios das observações meteorológicas no Estado. Funcionou na Avenida Paulista a partir de 1927 e depois, em 1932, foi para o local onde permanece ainda hoje, vizinho do zoológico.

As medições começaram em 1933. Dos mais de dez prédios que compõem o complexo, pelo menos cinco datam dos anos 1940, em estilo art déco. Dois têm cúpula de aço típica de observadores. "A estação é uma instituição dentro do IAG", explica Festa. "Fazemos trabalhos de observação, mas também ensino, pesquisa e extensão."

Museu. Festa reúne equipamentos meteorológicos históricos, além de documentos e móveis da antiga Comissão Geographica e Geológica, de 1886. Ele trabalha há quatro anos na elaboração do projeto do Museu da Meteorologia na estação. "Temos muita coisa e queremos resgatar essa história." Neste mês, o local vai ganhar um planetário em um dos prédios históricos, que foi reformado.

 

 

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