A vida era às margens, até o rio virar inimigo

Em 1h20, a água subiu mais de 2 metros e destruiu Palmares; as mortes na cidade, porém, não foram por afogamento, mas por ataque cardíaco

Bruno Paes Manso / TEXTO e Ernesto Rodrigues / FOTOS, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

O nome aristocrático de Emídio Camelo Pessoa Neto, morador de Palmares, em Pernambuco, não engana: ele é plantador e fornecedor de cana-de-açúcar, assim como foi seu bisavô por parte de pai e tataravô por parte de mãe. Ao longo de mais de três séculos, desde quando os engenhos ajudaram a alavancar a economia colonial brasileira, Pessoa Neto e grande parte dos habitantes das cidades da Zona da Mata se mantiveram fiéis à tradição cultural e econômica da região, baseada na produção de açúcar, que levou cidades a serem erguidas às margens do rio para usar a água abundante que moveu engenhos e usinas.

Se os costumes e estruturas mudaram pouco, o clima parece sofrer transformação mais ligeira. "No passado, as enchentes nunca foram problema para a região. As chuvas no máximo lavavam as ruas. Ficávamos mais preocupados com a estiagem, que ameaçava as safras de cana e a baixa produção afetava de alguma forma todos os habitantes daqui."

Prova disso é que os principais prédios de Palmares foram erguidos às margens do Rio Una e permaneceram de pé. Foi o caso do Hospital Regional, construído nos anos 1960, que na semana passada ficou totalmente submerso; a Igreja Presbiteriana, de 160 anos; os principais casarões do fim do século passado, a usina da cidade e os cerca de mil estabelecimentos comerciais que funcionam ao longo da rua comercial.

Por ironia, depois da chuva o solo argiloso do tipo massapé, que já fez a riqueza dos fazendeiros da Colônia, era o maior pesadelo, invadindo ruas, entupindo tubulações, dificultando a andança dos moradores e causando o forte mau cheiro que impregnava a cidade ao se misturar com lixo e comidas em decomposição.

A revolta dos céus e dos rios da cidade se manifestou pela primeira vez no primeiro ano do novo milênio. Em 2000, as águas não chegaram a atingir o primeiro andar dos sobrados e a tragédia foi vista como um episódio único, daqueles que acontecem a cada cem anos. "Todos aqui foram pegos de surpresa. Havíamos acabado de testar os equipamentos da usina para iniciar em setembro a moagem de 800 mil toneladas de açúcar. A cheia estragou os planos", diz o superintendente da Usina Norte Sul, Abimael Colonhezi, a principal da cidade, que ocupa uma área de dez hectares no centro do município e durante a safra rende empregos para 2.500 pessoas.

A Usina Norte Sul era propriedade do atual prefeito de Palmares, José Bartolo. Foi comprada há dois anos por um grupo paranaense, que esperava construir uma destilaria para mudar a tradição açucareira para concorrer pelos dividendos do álcool. Tudo ficou mais difícil depois das chuvas, que carregaram uma peça de 3 toneladas da esteira de cana e deslocaram do lugar um tanque gigante de 5 milhões de litros.

Formado em Geografia e proprietário de uma revenda de carros em Palmares, Rafael Pimentel Neto arrisca uma teoria para a revolta do clima. Ele lembra que nos anos 1980 grande parte da população dos engenhos, fazendas vizinhas às cidades da Zona da Mata, encheram as cidades. Invadiram o leito dos rios, que ficaram mais estreitos e passaram a ter assim uma nova relação com os habitantes.

Ataque cardíaco. Uma das características comuns às duas últimas cheias foi a rapidez da subida do nível das águas até tragar todas as casas. O proprietário do supermercado Híper Hildo, Luiz Gustavo Bezerra Cavalcante, lembra que no dia 18, às 17 horas, o supermercado começava a encher. Em 1h20, as águas subiram mais de dois metros e ficaram a dois degraus do 1.º andar, onde ele conseguiu colocar 30% do estoque do mercado.

Como o nível subiu em pouco tempo, 30 funcionários ficaram dois dias presos no supermercado. A manutenção equivocada das comportas da Barragem do Prata, especula o comerciante, pode explicar as rápidas subidas de nível. "Em vez de irem abrindo aos poucos, parecem que abrem de uma vez, quando as águas já estão para vazar", diz Cavalcante, que teve prejuízo estimado em R$ 5 milhões.

A ameaça da Barragem do Prata, por sinal, que fica em São Joaquim dos Montes, a 60 km de Palmares, e comporta 150 milhões de litros de água, causou pânico nos moradores durante as cheias. Depois do jogo do Brasil contra a Costa do Marfim, no domingo, quando parte da população ainda sofria o impacto de ver as casas destruídas depois de as águas baixarem, rapidamente se espalhou um boato de que a Barragem do Prata havia sido destruída. A população foi para as ruas tentar chegar a bairros mais altos. Houve desmaios, pessoas pisoteadas, batidas de carros e a rádio comunitária precisou avisar que se tratava de mentira. Depois da confusão, foram registradas as duas únicas mortes em Palmares. Não por afogamento, mas por ataque cardíaco.

Coube ao padre Agivaldo Lessa Lemos encomendar os corpos. "Estavam todos em choque e um simples boato pode afetar toda a cidade", comenta o religioso, que na noite de quinta-feira caminhava com um grupo de cinco jovens, portando um megafone, distribuindo 3 mil pães com mortadela e café com leite. "Agora os nervos começam a se acalmar. É hora de botar a cabeça no lugar."

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