A VIDA DO SAMBISTA QUE FOI PROCURADOR DA REPÚBLICA

Baeta Neves, o Didi, brigou com a mãe e a mulher para ficar no samba

O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2013 | 02h01

Restando uma semana para o Carnaval, há quem não saiba cantar os sambas- enredo das escolas do Rio e São Paulo. No entanto, mesmo quem não suporta a folia provavelmente já ouviu e até sabe cantar trechos de É hoje, samba entoado pela União da Ilha no distante ano de 1982: "A minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela...".

Regravado por Caetano Veloso, esse é o segundo samba-enredo mais cantado no Brasil nos cinco últimos carnavais, segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que fiscaliza direitos autorais. Só perde para Peguei um Ita no Norte (conhecido como Explode coração na maior felicidade). Quase todo mundo conhece É hoje, mas pouca gente sabe que o autor, de tradicional família alagoana que se transferiu para o Rio, abandonou uma respeitada carreira jurídica para se tornar um dos mais importantes compositores de sambas-enredo da história. Encantado com as escolas de samba, brigou com a mãe e terminou um casamento.

Vítima de cirrose, quatro anos após sua morte inspirou outro samba-enredo clássico: "Hoje eu vou tomar um porre, não me socorre, que eu tô feliz...". Assim foi Gustavo Carvalho Baeta Neves, ou apenas Didi, homenageado pela União da Ilha em 1991 com o enredo "De bar em bar, Didi, um poeta". A família de Didi era muito rica, mas sofreu uma derrocada com a morte do pai, aos 35 anos, em 1937, conta o escritor Alberto Mussa, sobrinho de Didi e coautor de "Samba de enredo - História e Arte". O futuro sambista tinha dois anos e se mudou com a família do Méier, no Rio, onde tinha até motorista particular, para a ilha do Governador, onde chegou a morar em um porão.

Venceu a primeira disputa de samba-enredo, na União da Ilha, em 1955. Com 19 anos, preferiu assinar com o pseudônimo Didi. Era uma forma de evitar broncas em casa.Nos anos 1960 a carreira jurídica deslanchou e Didi se tornou procurador da República. A rotina profissional e a pressão familiar (sua mulher criticava o envolvimento com o samba) fizeram Didi se afastar do carnaval em 1971. Em 1977 voltou à União da Ilha. Seu último samba a embalar a Sapucaí foi entoado pelo Salgueiro em 1987. Vítima de derrame e portador de cirrose, não pôde ir à escola na noite da escolha do samba. Morreu em abril daquele ano, sem deixar filhos. / FÁBIO GRELLET

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