A vida do camaronês jogado em alto-mar

Uma história que começou há 60 dias na África, a 7,4 mil quilômetros da América do Sul, e quase acabou sobre um estrado de madeira em alto-mar, já em domínio brasileiro, deve resultar em um júri popular em que somente os jurados falam português. Mais: a vítima e os seis acusados não falam a mesma língua.

JULIO CESAR LIMA , ESPECIAL PARA O ESTADO , CURITIBA, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2012 | 03h03

Em 13 de junho, o camaronês Ondobo Happy Wilfred, de 28 anos, embarcou clandestinamente no navio maltês Seref Kuru. Após oito dias, se apresentou à tripulação e foi mantido preso por mais quatro, sob tortura, antes de ser lançado ao mar, com uma lanterna e dinheiro. Foi resgatado por um navio chileno.

Na sexta-feira, 13 dos 19 tripulantes (17 turcos e 2 georgianos) embarcaram de São Paulo para Istambul. Estavam sob vigia desde o dia 9 de julho, quando Ondobo os denunciou por tortura, racismo e tentativa de homicídio. O juiz federal Vicente de Paula Ataíde Júnior acatou parcialmente denúncia do Ministério Público e considerou que os 13 não tiveram participação em nenhum crime. Já o capitão e cinco tripulantes vão responder a júri.

No Hotel Líder, em Paranaguá, Ondobo passa a maior parte do tempo no quarto. De temperamento instável, na sexta-feira, irritou-se ao ser questionado pelo Estado sobre suposta atuação política em seu país. Durante o dia, ele passa algumas horas no quarto, com um computador à disposição. Costuma se exercitar no Parque da Aviação.

O comandante Coskun Çavdar deve responder por tortura e tentativa de homicídio, assim como Ihsan Sonmezocak, Mamuka Kirkitadze, Zafer Yildirim e Ramazan Ozdamar. O marinheiro de convés Orhan Satilmis responderá também por racismo. Em caso de condenação, as penas vão de 8 a 34 anos - e devem ser cumpridas no Brasil.

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