''A urbanização de favelas deve vir de dentro para fora''

Cinquenta anos depois do estudo histórico publicado pelo 'Estado', o mestre em Sociologia e ex-consultor da ONU observa que 'falta criatividade' para resolver o problema

Felipe Werneck / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

Entrevista

José Arthur Rios

Um dos principais resultados do estudo Aspectos Humanos da Favela Carioca, publicado há 50 anos pelo Estado, foi a constatação de que "a favela não era um ninho de miseráveis, de bandidos ou de delinquentes, era algo muito mais complexo do que a visão simplista dos reacionários parecia indicar", diz o sociólogo José Arthur Rios, que coordenou a pesquisa, considerada inovadora. Hoje com 88 anos, ele continua trabalhando no mesmo escritório da época do estudo, na Rua México, 31, no centro do Rio. Agora, no cinquentenário da publicação, será realizado o colóquio "Aspectos Humanos da Favela Carioca: ontem e hoje", no salão nobre do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS/UFRJ). O sociólogo faz hoje a conferência de abertura do evento.

Em entrevista ao Estado, Rios comenta projetos como o Favela-Bairro ("solução epidérmica") e a mais recente instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). "É uma tentativa necessariamente transitória. Não se pode ocupar indefinidamente. Continuo insistindo na necessidade de participação efetiva do favelado", diz.

Sobre a retomada do discurso das remoções pelo atual prefeito, Eduardo Paes (PMDB), ele é categórico: "Uma fatalidade. Falta criatividade para enfrentar os problemas na sua verdadeira dimensão. Não estamos mais nos anos 50. Remoção para onde? É gota d"água num oceano." Para Rios, a ênfase deve ser dada "não na favela, mas no processo de favelização". Leia os principais trechos da entrevista com o sociólogo, que defende a criação de uma "prefeitura das favelas"".

Como surgiu o convite para coordenar o estudo publicado em abril de 1960?

Eu era representante do movimento Economia e Humanismo (fundado na década de 1940 pelo padre francês Louis Joseph Lebret). Fui a São Paulo e tive um entendimento com o doutor Julio de Mesquita, o Julinho, como era conhecido. Ele tinha uma visão do quadro político da época e não concordava com a construção de Brasília. Achava que havia outras prioridades. Entendia que a construção era extremamente onerosa para o País naquele momento, enquanto o Rio, capital federal, estava enfrentando enormes problemas urbanísticos.

Qual foi a principal conclusão após os dois anos de trabalho?

A ideia de que o favelado era um desgraçado, um delinquente, um vagabundo, era a que predominava. As favelas representariam uma concentração de miséria e criminalidade. É claro que a pesquisa não ratificou inteiramente essa visão. As favelas não podiam ser vistas indistintamente como antros. Ao contrário, o que o estudo mostrou é que não havia a favela, mas favelas, e que elas eram extremamente diferentes. Algumas com estratificação social já acentuada e dotadas de classe média. Portanto, a favela não era nenhum ninho de miseráveis ou de delinquentes, era algo muito mais complexo do que a visão simplista dos reacionários parecia indicar.

Quem eram esses reacionários?

Quando digo reacionários, é evidente que se destacavam duas categorias, que nos criaram grandes problemas. A dos políticos profissionais, os demagogos, os chamados donos de favelas, que não podiam permitir que fosse desmentida essa visão da favela como um aglomerado de miseráveis dependentes, para poderem manter o controle que exerciam. E a categoria dos interesses imobiliários, que olhavam, principalmente no caso da zona sul, para os terrenos onde as favelas estavam localizadas. O que resultou foi principalmente uma consciência de que a favela também abrigava pessoas honestas, trabalhadoras, que eram vítimas das condições que o Rio padecia. Problemas que continuam existindo, só que a escala aumentou. Não só em favelas e população, mas em insegurança.

Tem solução?

Não é uma panaceia, mas uma combinação de políticas. De habitação, de terras, de migração, de emprego, de transportes. Não estou dizendo que o problema seja simples. É extremamente complexo. Exige visão de estadista. A urbanização deve vir de dentro para fora, não por meio de maquiagem. Não se pode impedir que o homem deseje melhorar, ter acesso a serviços fundamentais. Quer ter escola para os filhos, postos de saúde, trabalho. A falta de transporte barato e adequado é uma das razões da criação de favelas. As babás, as lavadeiras da classe média, onde vão morar? Estudamos projetos e planos de suposta solução dos problemas. O resultado está aí. Não nos desmente. Eu não era um fanático, um fundamentalista, não queria que a favela como tal permanecesse. A ideia era urbanizar, mas respeitando a integridade dos favelados, e não botando eles para fora, para se arrumarem em outro lugar. Ou seja: construírem um barraco em outro lugar.

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