A tragédia vista de perto

Histórias de quem perdeu a família, a casa ou foi resgatado no deslizamento que impressionou o mundo

Felipe Werneck, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2011 | 00h00

Dois dos três bombeiros que estavam desaparecidos desde o início das buscas por sobreviventes tiveram os seus corpos retirados ontem pela Defesa Civil, em Nova Friburgo. No momento do resgate, quando os corpos eram levados, houve aplausos.

No fim da tarde, voltou a chover e a Defesa Civil alertou para o risco de novos deslizamentos, suspendendo as buscas. Apesar do alerta, muita gente carregava malas e sacolas, ainda deixando suas casas. No início da noite, pelo menos 20 caminhões do Exército e da Marinha chegavam à cidade.

Até o início da tarde de ontem, 153 corpos já haviam sido levados para o ginásio do Instituto de Educação de Nova Friburgo, onde foi improvisado o necrotério da tragédia. "Vi muito meu sobrinho jogar bola aqui", comenta um senhor que está sentado ao lado do repórter no último degrau da arquibancada, aguardando ser chamado para receber a declaração de óbito. Caixões de todos os tamanhos estão empilhados perto da trave do gol. Os corpos são enfileirados dos cantos para o centro da quadra, à medida em que chegam, carregados em carrinhos de mão.

Pedro Júlio Brantes Folly, o sobrinho do comerciante Weimar Jaccoud, de 57 anos, tinha 10 anos. "Ele foi passar o fim de semana na casa da avó, Maria do Carmo, que também morreu. Eles estão juntos ali", aponta Jaccoud, segurando o choro, para a lateral da quadra na altura do meio de campo.

O comerciante aguarda mais um pouco e recebe as duas vias das declarações de óbito. "Preciso entregar para o pessoal que faz o enterro." Corpos continuam chegando em carrinhos de mão. Um pranto silencioso toma conta do ginásio. Sai mais um caixão para ser enterrado.

À medida que corpos são retirados, após o reconhecimento e a identificação, uma mulher prega uma cruz de esparadrapo na quadra. Do lado de fora, a fila e a apreensão aumentam. "Algum parente da Jenifer Alves?", grita a mulher com o papel na mão. Dezenas de pessoas aguardam a sua vez de cabeça baixa, sem tumulto. Algumas choram nos cantos. Chega mais um caminhão lotado de caixões novos.

A cidade de Nova Friburgo viveu mais um dia sem luz, sem água, sem telefone fixo nas casas e sem sinal de telefone celular. Dezenas de produtos descartados pelas farmácias, porque foram contaminados pela enxurrada, eram disputados na rua pelos moradores.

O comércio continuou fechado. Muitas pessoas temiam o desabastecimento de comida e de água. Os dois principais supermercados da cidade também não abriram. Na porta do ABC Compre Bem uma placa avisava: por motivo de força maior não abriremos hoje.

Circularam boatos de que lojas estariam sendo saqueadas, mas a Polícia Militar não confirmou. Uma Delicatessen, na Rua General Osório, foi furtada porque as portas haviam sido arrancadas pelas chuvas.

FAMÍLIA CONOLLY DE CARVALHO

A cor coral das paredes da mansão é a única que destoa dos vários tons de marrom do barro que devastou o Vale do Cuiabá, no distrito de Itaipava, em Petrópolis. Na entrada, um "OK", pichado em vermelho indicava que as buscas na casa estavam encerradas.

Ali, 14 dos 17 hóspedes que passavam sua terceira temporada de verão no imóvel morreram. Com exceção da babá, Suely, todos eram parentes de Erick Conolly de Carvalho, diretor do Grupo Icatu, e da mulher, Isabela. Até a noite de ontem, 13 corpos já haviam sido resgatados. Faltava o do caçula de cerca de 2 anos do casal, que perdeu outros três filhos. Um voluntário da Cruz Vermelha que participou da operação contou que cinco corpos, de duas crianças e três adultos, foram encontrados em um só banheiro, indicando que a família tentou se abrigar ali. Uma outra vítima, encontrada em um dos quartos, estava grávida. A propriedade pertencia ao presidente da Firjan, Eduardo Eugenio Gouveia Vieira.

No IML, no Hospital Alcides Carneiro, o caseiro Edewilson Oliveira esperava que seu filho reconhecesse os 13 corpos. Luiz Filipe Oliveira, de 24 anos, trabalhava como garçom na casa há oito e já havia servido aos Conolly de Carvalho em outras três férias. Consternado, declarou, ainda usando o presente como tempo verbal: "São pessoas maravilhosas". Luiz Filipe morava na casa dos fundos, que foi parcialmente atingida. Por volta das 2h de quarta-feira, ligou para o pai e disse que tinha conseguido subir no forro da casa com os dois filhos - Eric, de 5 anos, e Maria Luiza, de 2. "A casa dos patrões não teve chance, foi pega em cheio", disse Edewilson. / FLÁVIA TAVARES

"TERREMOTO"

"Pai, a casa está tremendo", disse Paula, de 15 anos, uma das quatro filhas do oncologista Paulo Mora, de 39 anos, ao acordar no meio da noite. Ela achou que o barulho da chuva era de tremor de terra.

Quando amanheceu, Mora teve noção do estrago. "O terreno da casa estava totalmente enlameado. A caixa d"água foi levada pela enxurrada. Estávamos sem água, luz e os celulares não tinham sinal. A estrada havia sumido. Pedi que todos se vestissem e colocassem o essencial na mochila. Decidi deixar o lugar a pé", contou o médico.

Mora estava há uma semana de férias com a namorada e as quatro filhas, em um sítio alugado no Vale de Cuiabá, em Teresópolis. Principal via de acesso àquela região, a Estrada Ministro Salgado Filho deixou de existir e a única ponte da região foi levada pela enxurrada de lama. / PEDRO DANTAS

RESGATE NA CORRENTEZA

A dona de casa Ilair Pereira de Souza, de 53 anos, passou momentos de pavor ao ser salva por vizinhos pendurada em uma corda enquanto sua casa, em São José do Vale do Rio Preto, desaparecia na enxurrada.

"Nunca tinha feito um nó em corda na minha vida. Quando jogaram a corda, me amarrei rapidinho e nem sei como fiz aquele nó", afirmou ao site G1. Fumante desde os 9 anos, Ilair, conhecida como Pelinha, disse não saber como encontrou forças e fôlego para suportar o momento em que ficou submersa na enxurrada.

Ela conta com tristeza como acabou perdendo seu cachorro, Beethoven, que tentou levar junto durante ao salvamento. Pelinha tinha outros dois, que também não se salvaram. "Ele mordeu meu braço para tentar escapar, mas não consegui segurá-lo. Se eu tentasse ajudá-lo, eu iria morrer. Coitadinho, ele ficou me olhando com aquele olhinho triste e se foi naquela água. Não tinha o que fazer", disse ela, mostrando a marca da forte mordida no braço esquerdo.

Pelinha revela que desde que foi resgatada não conseguiu dormir por lembrar dos momentos de tensão que passou. Ao ver a água subir, contou, ela tentou se escorar sobre uma laje, imaginando que o local seria seguro e resistente à força d"água. No entanto, de acordo com ela, o local parecia um "papelão" sendo destruído pela correnteza em pouco tempo.

"Meu irmão queria me socorrer, mas não podia, pois se ele fizesse isso nós dois iríamos morrer", afirmou aos prantos. / MÔNICA CIARELLI

A PERDA DE TRÊS FILHOS

O casal Marilza dos Santos Fisher e Jean Carlos Delfino Afonso, ambos de 38 anos, estava se preparando para o casamento da filha primogênita, que seria amanhã. Aline, de 20 anos, namorava havia dois anos e meio o jovem Thomas Queirós, de 18.

Dois dias antes da festa, eles viveram uma realidade muito diferente: ontem de manhã, enterraram no Cemitério Municipal de Teresópolis o corpo de Aline e de dois outros filhos, Cintia, de 17 anos, e Jean, de 9.

O enterro não foi só significativo por causa do drama do casal, mas também pelo cenário no cemitério. Os três foram os primeiros a ocupar as 180 covas rasas abertas só para abrigar os mortos pela chuva.

Até o início da noite de ontem, 30 dos 175 mortos tinham sido enterrados, mas o cemitério funcionaria somente até as 22 horas.

O casal estava com os três filhos na casa da família, no bairro Fisher, perto da BR-116 (Rodovia Rio-Bahia). A família morava naquele local havia mais de 20 anos. A chuva trouxe uma avalanche de terra que soterrou Jean Carlos em seu quarto.

"Não consegui fazer nada, fiquei preso e nem tive forças para me soltar", explicava ontem o torneiro. Com a explicação, tentava convencer a si mesmo que não tinha como impedir a morte dos filhos. A mulher saiu ilesa, mas também não teve como resgatar Aline, Cíntia e Jean. Os três ficaram embaixo de mais de 1,5 metro de lama, o que impossibilitou o salvamento e dificultou a recuperação dos corpos.

Marilza, ontem, mal conseguia falar. Jean Carlos tentava mostrar resignação, agarrando-se na fé: "Agora é pedir a Deus para nos fortalecer. Não tem dinheiro, não tem nada. Só Jesus."

"Ficamos eu e a mulher, sem casa, sem carro, sem nada. Casa e carro, trabalhando conseguiremos de novo. Mas como vou ter meus filhos de volta?", questionava o torneiro mecânico. / MARCELO AULER

COMÉRCIO FECHADO

Dono de uma mercearia na Praça Getúlio Vargas, no centro de Nova Friburgo, Jefferson Huback foi um dos poucos a abrir as portas ontem. Em duas horas, vendeu a quantidade de produtos que está acostumado a vender em uma semana.

"Já acabou meu estoque de água e as outras mercadorias também estão chegando ao fim. Depois, não sei como vai ser. Acho que até domingo não vai ter mais nada", disse ele. "Se todo o comércio continuar fechado, as pessoas vão entrar em desespero." A loja é uma exceção. A cena mais comum é a de portas cerradas na região, por medo de saques ou por falta de energia elétrica. Circulam boatos de que estabelecimentos teriam sido saqueados, mas a polícia não confirma. Paulo Santos, de 25 anos, saiu da loja carregando uma sacola lotada de pacotes de biscoitos. "Estou estocando, porque a gente não sabe como vai ficar a situação", disse ele. Os principais supermercados da cidade estão fechados.

Dona de uma bonbonnière no centro, Eliana Ximenes abriu metade da porta de seu estabelecimento. "Parece que vai ter uma guerra e o pessoal veio comprar. Nosso estoque está acabando", afirmou. A delicatessen de Gilberto Sader, na Rua General Osório, teve as portas arrancadas pela enxurrada e mercadorias foram furtadas quando o local estava vazio. Leandro Ribeiro, que mantém sua padaria aberta, disse que pensa em fechar as portas para guardar mantimentos para a família. / FELIPE WERNECK

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