A tragédia do Morro da Congonha

A tragédia não ficaria conhecida se uma testemunha não tivesse filmado as cenas de horror. Seria apenas mais um número sem rosto nas estatísticas de violência do Rio, se o jornal Extra e, em seguida, toda a imprensa não tivessem exposto exaustivamente o caso.

ANÁLISE: Marcelo Beraba, O Estado de S.Paulo

18 Março 2014 | 02h02

Claudia Silva Ferreira foi enterrada ontem à tarde. O marido, o vigia Alexandre Fernandes da Silva, de 41 anos, disse, no enterro, que ela foi tratada pela polícia "como bicho". O comando da PM informa que os policiais envolvidos foram recolhidos para que sejam investigados e para que sejam apuradas as responsabilidades. Mas, independentemente do desfecho da investigação, fica uma vez mais comprovado o despreparo da Polícia Militar do Rio.

E o diagnóstico não é novo. A polícia tem um histórico de alta incidência de mortes de civis em confrontos. Há inequívoco uso excessivo da força no dia a dia da cidade, principalmente nas favelas e, desde junho, nas manifestações de rua.

A novidade está em uma série de fatos recentes que provocam, além de indignação, uma grande frustração em parte da população que acreditava e apostava uma nova polícia desde a implementação das Unidades de Polícia Pacificadora e na permanência à frente da Secretaria de Segurança do delegado da PF José Mariano Beltrame.

As UPPs, iniciadas em novembro de 2008 no Morro Dona Marta, pareciam um indicador de que estava se formando um policial mais treinado, menos violento, dentro de uma política de segurança que substituía as invasões e os confrontos que põem em risco a população em geral por ações de inteligência e policiamento ostensivo civilizado.

A detenção ilegal do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza por policiais da UPP da Rocinha, em julho, e o desaparecimento do seu corpo, depois de ter sido torturado e morto dentro da própria sede da corporação, comprovaram que a cultura da violência não foi extirpada.

As UPPs já vinham sendo questionadas por causa da lerdeza de sua expansão além dos limites de segurança da zona sul e dos eventos da Copa e pelo descompasso entre a ocupação policial e os investimentos locais em saúde, educação, transportes e oportunidades de emprego de qualidade.

O episódio Amarildo desmoralizou a ação da PM na Rocinha, ressuscitou a aversão e a desconfiança de seus moradores em relação aos policiais e atingiu a imagem de Beltrame e da sua política de segurança, que tinham forte apoio dos cariocas e rendiam dividendos eleitorais para o governador Sérgio Cabral (PMDB).

Nas últimas semanas, voltamos a ter enfrentamentos armados em várias favelas, incluindo as pacificadas. A Rocinha e o Alemão estão fora do controle das forças policiais. Os comandos armados voltaram a ocupar posições nos dois complexos. A morte de Claudia piora este quadro de crise da segurança, porque aumenta a aversão à PM e deixa claro que os esforços de mudança não alcançaram o conjunto da tropa.

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