A Solange em dia de Babette

Não vejo a hora de saber no que deu a ceia que a Solange produziu ontem à noite. A prima que adora falar difícil não sabe fritar um ovo (se soubesse, frigiria), mas cismou de preparar tudo sozinha, e mais, com megalomaníacas ambições gastronômicas. Baixou nela o espírito de ninguém menos que a Babette, com todas aquelas cailles en sarcophage do filme.

O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2012 | 03h02

A prima só lamentou que o ágape fosse transcorrer nessa data que "os carrascos da língua portuguesa" chamam de réveillon, galicismo diante do qual ela se arrepia em pruridos vernaculares, avessa que é a qualquer pistilo verbal que não pertença à última flor do Lácio. Prefere chamar de "consoada" a ceia de, argh, réveillon.

Tão forte lhe vem das entranhas esse argh que ela até cogitou marcar o bródio para este 1.º de janeiro. Como não haveria quorum, acabou se conformando com a noite de 31, mas fez saber aos convivas, com todos os seus mesoclíticos: tratar-se-ia de uma consoada. Imagino que o pessoal precisou correr ao dicionário antes de aceitar o convite.

À prima, em cujos miolos parecem habitar o Aurélio e do Houaiss, bastou-lhe empunhar um livro de receitas. Mas não desses modernos, deixou claro, para preguiçosos, adeptos do vapt-vupt culinário. Livro de receitas, para ela, tem que ser à antiga, de preferência com muito ácaro, muito respingo de ovo, se bobear um par de traças e uns túneis abertos por carunchos ao longo de décadas. Todos os acepipes e vitualhas, pontifica a Solange no seu florido linguajar, têm que ter sido testados e aprovados no fio de muitas gerações de quituteiras. Mal entrou dezembro, ela foi apanhar na estante o seu desmilinguido exemplar de A arte de comer bem, de Rosa Maria, numa edição de 1933. Queria uma consoada que se estribasse em sólida bibliografia.

A Rosa Maria não se limita a fornecer receitas requintadas - está em condições de prodigalizar também lições boas maneiras. Ensina, por exemplo, que "a dona da casa deve comer pouco, e não deixar que ninguém tenha tempo de formular um desejo". Cabe a ela "entreter o espírito dos convivas que o têm, e não deixar os menos inteligentes se expandirem demais". Danada, a Rosa Maria: pensou até mesmo nos apoucados que se acercam da mesa como muares do cocho. Pensou também na hipótese de que a anfitriã não disponha de um mordomo: bastará improvisar nessas funções um dos copeiros; e se este não tiver casaca, "pode vestir smoking preto, ou branco, com calças pretas e luvas de algodão branco". Melhor esquecer essa parte, suspirou a Solange, já se conformando com sua arrumadeira, a Creusa, xucra porém prestativa.

Quanto ao cardápio do rega-bofes, a Solange não esconde que o sonho teria sido preparar esta iguaria atribuída ao gastrônomo britânico Osbert Sitwell: "Você caça um cisne, após obter a permissão real, é claro. Depois de limpo e depenado, você o recheia com um pavão, já limpo e recheado com faisão". Um arraso! Temerosa, porém, de encrencas com o Ibama, a prima decidiu preparar outro tipo de carne - desde que pudesse ir às raízes, ou seja, ao animal vivo.

Nessa busca, veio a cair numa publicação do Sebrae de Minas Gerais e, no capítulo carne bovina, encontrou este passo a passo: "Vá ao pasto, lace o boi usando corda grossa. Lace o chifre ou o pescoço e dê uma machadada na testa". O problema é que à Solange lhe falta um machado, e, mais ainda, um pasto nas imediações de onde mora, na capital paulista.

Também matar um frango lhe pareceu problemático: "Jogue milho no terreiro e chame as galinhas. Pegue uma faca e um prato. Coloque os pés do frango debaixo do seu pé direito e as asas debaixo do pé esquerdo. Segure o pescoço, raspe algumas penas e passe a faca na altura da orelha, em diagonal". Pisar nos pés e nas asas da inocente ave? Jamais! Em derradeiro recurso, informou-se sobre como matar um porco: "Pegue uma corda média, vá ao chiqueiro e amarre um dos pés do porco. Leve-o para o lugar da matança e amarre a corda num poste. Depois de uma machadada na cabeça, dê uma facada debaixo da mão esquerda do animal para acertar o coração". De novo, o problema do machado... - desanimou-se a Solange. Nesse estado jazia dois dias atrás, e, conhecendo-a bem, não acho descabida a hipótese de que na sua consoada a pièce de résistence tenha sido pizza - sim, pizza, mas não qualquer uma, pizza como só a Solange sabe pedir no delivery da esquina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.