A Solange e seu brechó verbal

Solange, a prima que adora falar difícil, não tem a menor paciência com quem se refere ao carnaval como "tríduo de Momo". Não porque não ame uma conversa enfeitada - muito ao contrário: a criatura, que apresentei a você em outra crônica, é chegada a dizer, no mais informal dos papos, coisas como plêiade, pugilo, máxime, mistifório ou quotiliquê. O que ela não aceita, explica, é insultuosa ignorância de quem usa "tríduo", espaço de três dias, para designar um evento que na realidade se estende por quatro, de sábado a terça-feira. Por isso a Solange vem tentando, até agora sem êxito, emplacar a expressão "quatríduo de Momo", indiferente às bocas que se boquiabrem em espanto ou riso.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

06 Março 2011 | 00h00

A prima - não é impossível que você se lembre dessa ave rara cujos cabelos não se tornam quebradiços, e sim "bifurcam nas extremidades" - frequenta o léxico como você e eu vamos a um brechó, no caso um brechó verbal. Nada a faz mais feliz do que topar no dicionário com alguma esquisitice que imediatamente possa recolher, livrar do pó e botar em uso, de preferência um hápax - palavra ou expressão que tenha aparecido apenas uma vez nos registros da língua. Exemplo de hápax? Vou perguntar à Solange, depois lhe digo. Talvez amaxofobia, que vem a ser, diz o Houaiss, o "medo mórbido de se encontrar ou viajar em qualquer veículo". Ou alpondra - "cada uma das pedras que formam, de uma margem à outra de um rio, um caminho que pode ser percorrido a pé". Literalmente, o caminho das pedras. Adivinha quem me ensinou tudo isso?

A Solange ama antes de tudo o rigor e a exatidão, e volta e meia, do alto de sua torrinha de marfim linguística, dispara sobre os predadores do idioma alguma pérola do professor Napoleão Mendes de Almeida, xiita-mor do vernáculo. Como seu mestre, "falecido, mas não morto", a prima acredita que "a língua portuguesa no Brasil vem, desde o passamento de Ruy Barbosa, sendo tratada com incúria cada vez maior". General de uma guerra perdida, Napoleão pertenceu à família de puristas cuja alma se cobre de brotoejas em presença de estrangeirismos. Em sua Ilha de Santa Helena idiomática, a cada 31 de dezembro o professor provavelmente recorria a "consoada" para driblar o galicismo "réveillon".

A Solange ainda não chegou a tanto, mas não abre mão de alguns princípios, entre eles a precisão vocabular, da qual "quatríduo" é apenas uma ilustração. Na qualidade de parente próximo, tenho sido testemunha auditiva das bizarrias que a prima costuma desencavar. Foi graças a ela, compiladora de uma lista garimpada em dicionários e napoleões, que pude ampliar meus conhecimentos a respeito dos sons emitidos pelos mais diversos animais. Ainda não tive a oportunidade de usar a lista que ela me deu, escrita à mão (quem sabe numa viagem a bordo da Arca de Noé) - mas, para ficar apenas na letra A, já sei que uma abelha azoina, uma águia borbolha, uma andorinha zinzilula, uma araponga bigorneia, uma arara chalra, uma ariranha regouga e um arganaz, seja lá o que for isso, guincha.

Você, que não dispõe de uma Solange, talvez se interesse em saber, mesmo de segunda mão, que o beija-flor trissa, o bode bodeja, o elefante brama, o camelo blatera e burro orneja ou rebusna. O cão, com ou sem pedigree, não apenas late como aule, cainha, cuinca, ganiza, matica e, claro, rosna. A capivara, tanto quanto a paca, assobia. Cotia, não: saiba você que a cotia gargalha, o que faz também a hiena, enquanto a patativa, coitada, soluça. A cegonha, trazendo nossos bebês, glotera. Ensina ainda a lista da Solange que a ema suspira, o estorninho pissita, o gafanhoto chichia e a galinha d"angola, onomatopaicamente, fraqueja. O peru, sem saber que vem aí o massacre natalino, gorgoleja e grugruleja. O sapo na lagoa trucila; o tucano, não necessariamente na oposição, chalra; e o veado, com seus estigmatizantes problemas de imagem, tem mesmo que berrar, bramar e rebramar. Quanto à nossa ave rara, a Solange, esse hápax em forma de gente, não há dúvida de que ela, como ninguém, solangeia.

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