Mouco Fya/ Estadão
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'A sociedade não quer ver quem mora na rua’

O vício da mãe por crack o fez sair de casa atrás de paz; Thiago guarda dinheiro do que vende para um dia ter uma sua própria residência

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Thiago Felipe da Silva

“Hoje eu tô aqui porque eu quero. Da relação com a família eu cansei, tá ligado? Cansei de sempre depender de mim. Desde o Nike que eu uso até o dinheiro que eu pego uma condução. Eu sempre fiz meu corre, fiz por onde, mas nunca tive aquele valor. Aí, depois que eu fiquei ‘de maior’, eu optei por fazer meu corre, viver minha vida, não depender de parente. Eu me joguei.

Eu vim pro centro porque aqui eu consigo trabalho, dinheiro... Do lado da minha família é só crítica. E eu venho de uma família pesada, conturbada. Minha mãe é viciada em crack e ela é o pilar da minha casa. Então o pilar não tava firme. Acabou me desestruturando, me distanciando. A convivência com ela era boa, até chegar num nível que eu não aguentava mais, porque gerou agressão. Ela veio dizer que eu agredi ela, eu nunca fiz isso. Não bato em nenhuma mulher, nem com uma rosa.

Meu pai de sangue eu nunca fui atrás. Não deu valor pra mim, não me deu o nome dele. Agora, meu pai que deu meu nome mora na zona norte, mas aí ele tem a vida dele. Eu procuro não procurar.

Tô aqui, mas eu vendo meus negócios. Faço minhas correrias, sempre tenho dinheiro no bolso. Tive que me distanciar para ter um pouco mais de paz e ter o que eu tenho. Não é muito. Não tenho carro, não tenho uma casa, mas eu tenho paz pelo menos.

Viver na rua é normal, desde que você saiba viver. Cada um faz seu corre. Eu vivo na rua, mas eu não vivo parasitando. Compro e vendo aparelho de celular, carregador, bateria. Não furto nada. Compro com nota fiscal e revendo.

Alimentação eu tiro do meu bolso. Tem muita ONG que dá marmita, é legal. Mas eu já não posso comer muito esses bagulhos porque eu passo mal. Às vezes eu compro uma marmitex ou faço o rango na lenha. Eu tenho panela, colher, faca. Gosto de fazer minha comida.

A minha expectativa é sair daqui. Eu tô guardando dinheiro pra ver se eu compro uma casa. Já tive uma casa minha, já aluguei em pensão, invasão… Mesmo assim, eu prefiro dormir na rua, na barraca que eu comprei, do que em albergue. Eu não gosto de ficar em lugar com muita gente, ainda mais gente que eu não conheço. Aqui eu conheço quem tá do meu lado.

O problema da sociedade com quem mora na rua não é nem questão de cansar de ver, é de não querer olhar. É de muito tempo que não tem amor ao próximo, cada um pensa em si próprio. Tem muita gente que vai ali naquela igreja, ajoelha… Mas na hora que vai passar aqui pelo farol, passa para o outro lado. Se dizem fiéis, humildes, da paz, mas de paz não tem nada. Só deles atravessarem a rua já é um julgamento.”

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