'A saúde da Igreja no Brasil é a saúde da Igreja no mundo'

Americano diz que País é ideal para testar o plano missionário, mas só o futuro dirá se Francisco conseguiu implementá-lo

Entrevista com

CIDADE DO VATICANO, O Estado de S.Paulo

20 Julho 2013 | 02h06

O Brasil será o campo de provas perfeito para que o papa Francisco comece a colocar em prática sua visão de uma Igreja missionária, que sai em busca do povo. A análise foi feita pelo mais influente vaticanista, o americano John Allen, em entrevista ao Estado.

Após quatro meses de pontificado, como o sr. avalia o papa? Ele já começou a fazer as reformas que prometeu?

Temos de distinguir entre estilo e substância. No que se refere ao estilo, não há dúvidas de que ele é visto como uma mudança dramática, um ar fresco. Desde a forma como saiu no balcão na noite de sua eleição, pelo fato de pegar ônibus com os outros cardeais, de não viver no palácio apostólico, de ligar para os jornais na Argentina ele mesmo para cancelar suas assinaturas, de como ele vai ao encontro da multidão e não espera por ela. É um papa que faz o que fala. E isso tudo tem tido um impacto dramático. Francamente, ele já se aproxima, em quatro meses, de ter o status internacional que Nelson Mandela tem hoje. Ele se transformou em uma autoridade global inquestionável.

E no que se refere à substância? Nesse campo é um pouco mais complicado. Ele tomou alguns passos, criou uma comissão de cardeais que o ajudará a guiar a Igreja, e outra para investigar o banco do Vaticano. Mas, se uma reforma mais profunda vai ocorrer, ainda está por chegar. Ele já deu o tom e criou expectativas. Mas precisa implementá-las.

Como o sr. avalia a importância da viagem do papa ao Brasil?

O Brasil é o maior país católico do mundo. Portanto, a saúde da Igreja no Brasil é a saúde da Igreja no mundo. E a Igreja no Brasil, apesar de não estar ligada a aparelhos para conseguir respirar, tem levado sérios golpes. O aumento dos evangélicos e do secularismo nas grandes cidades, a dificuldade para levar aos jovens a mensagem. O papa já disse que quer uma Igreja missionária, que saia da sacristia e vá para as ruas. O Brasil seria o local perfeito para testar essa estratégia. Em termos de simbolismo, a viagem será um sucesso. Mas é no longo prazo que devemos pensar. A história contará que o primeiro papa latino-americano fez sua primeira viagem ao maior país católico do mundo, justamente na América Latina. Mas será que ele vai conseguir implementar essa Igreja missionária?

A viagem também terá um componente político, com a presença de Dilma Rousseff e de Cristina Kirchner? Não vamos nos esquecer da ironia. Por anos, Cristina não cruzava a rua para visitar o cardeal Jorge Bergoglio. Agora, em quatro meses, ela veio a Roma e irá ao Rio. Uma das dificuldades para a Igreja é que dois terços da América Latina estão sendo governados por governantes de centro-esquerda, às vezes hostis à Igreja. Do ponto de vista da Igreja, o que se pergunta é se vamos à paz ou à guerra com esses governos por esses temas. / JAMIL CHADE

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.