A Rua Nova de São José

A Líbero Badaró foi, em 1787, a última rua aberta no centro histórico de São Paulo. Governava a capitania o marechal frei José Raimundo Chichorro da Gama Lobo e por isso chamou-se a ela Rua Nova de São José. Mas o arrabalde continuou como se lá rua não houvesse. Ali por perto escravos despejavam as barricas de fezes e urina das residências. Eram tempos de privadas raras e penicos numerosos. Uma imundície.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2010 | 00h00

Não obstante, posso destacar três momentos que fazem de sua história uma singular narrativa do advento da modernidade em São Paulo. Chegara à cidade, em 1828, o médico italiano João Batista Líbero Badaró, que passou a atuar também como jornalista. Editava O Observador Constitucional, periódico em que malhava os políticos conservadores. Ainda que de inspiração liberal e constitucional, a Independência recente se defrontava com inclinações retrógradas do imperador. O constitucionalismo de Badaró questionava a opção absolutista de dom Pedro I. O jornalista acabaria sofrendo um atentado perto de sua casa, naquela mesma rua, nas cercanias do que é hoje a Ladeira Dr. Falcão, na noite de 20 de novembro de 1830. Ele morreu na manhã seguinte, tendo mencionado antes, à autoridade, o nome do provável mandante do crime, o ouvidor Cândido Ladislau Japiaçu, que fugiu. A reação ao episódio contribuiria para que dom Pedro I abdicasse, no dia 7 de abril de 1831.

Badaró eternizou-se na frase dita no leito de morte: "Morre um liberal, mas não morre a liberdade". Sepultado na Igreja do Carmo, seus restos seriam mais tarde transladados para o Cemitério da Consolação. Com a proclamação de República, a Rua Nova de São José passou a chamar-se Rua Líbero Badaró.

No outro extremo da rua, na casa em que foi morar, perto do Largo de São Bento, o reverendo Alexander Blackford, no dia 5 de março de 1865, instalou a nossa primeira Igreja Presbiteriana. De tradição calvinista e republicana, a igreja da Rua Nova de São José foi entre nós uma semente da modernidade, sobretudo no reconhecimento da igualdade cidadã da mulher. Na mesma rua vivia a família do comendador Luís Antônio de Sousa Barros. Uma empregada doméstica de sua casa, Inácia Maria Barbosa, converteu-se em 1878 e, por sua vez, converteu todas as mulheres daquela família. Dentre elas, Maria Pais de Barros, que faria de sua casa um centro de reuniões republicanas.

Um terceiro e definitivo marco da modernidade paulistana foi o Edifício Sampaio Moreira, o primeiro arranha-céu de São Paulo, construído em 1924, nos números 344-350 da Líbero Badaró, projeto de Cristiano Stockler das Neves. Estilo eclético, com citações do estilo Luís XVI, é monumento residual da nossa Belle Époque, que nos anos 1920 e 1930 compunha, com o Parque do Anhangabaú e os palacetes do Conde Prates, o mais belo recanto da cidade.

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