Daniel Teixeira
Daniel Teixeira

A rua leva o nome, mas o carnaval é só na placa

Na via da zona leste, o som da vez é o funk; outros locais da cidade de São Paulo homenageiam o samba

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - São apenas três quarteirões e uma tranquilidade que não combina com o nome. A Rua Carnaval é pacata, quase sem carros - quem dera alegóricos. E uma caminhada por lá, no miolo da Cidade Líder, zona leste de São Paulo - para alguns moradores, o bairro é Fazenda do Carmo, para outros Fazenda Aricanduva, há ainda os que chamam Jardim Alto da Boa Vista -, revela que o carnaval não está na preferência dos moradores, não.

“Olha, moro aqui há 15 anos e nunca ouvi falar de carnaval”, comenta o pedreiro Edmundo Brito Silva, de 50 anos, ouvindo um pop internacional no celular “convertido” em radinho no descanso pós-almoço. “Ainda bem. Porque, me desculpem os que gostam, mas não sou fã de carnaval.”

O estudante Ruan do Nascimento Magalhães, de 15 anos, sempre viveu ali. “Mas eu gosto de funk”, frisa o garoto, que diz que colegas da escola costumam achar engraçado o fato de ele morar em uma rua cujo nome não homenageia nenhuma personalidade das antigas. “Ninguém acredita na primeira vez que conto.” O funk, aliás, parece ser a preferência da região, a julgar pelo som que era possível escutar na frente de pelo menos quatro casas, na tarde de quinta-feira.

Mas a reportagem também localizou uma sambista de mão-cheia - ou seria pé-cheio? A dona de casa Rosângela Simplício Barbosa, de 45 anos, costuma ver os desfiles pela TV todos os anos. Torce para a Leandro de Itaquera, “porque é a mais perto daqui”, mas, conversa vai, conversa vem, revela: já desfilou no Anhembi. Em 1997. E foi pela Nenê de Vila Matilde. “A experiência foi sensacional”, afirma ela.

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Marco zero. A Rua Carnaval não é a única representante da toponímia paulistana a homenagear o samba. No Glicério, há o Marco Zero do Samba Paulistano, uma pequena área livre no entroncamento das Ruas da Glória, Lavapés, Tamandaré e do Glicério. Próximo dali nasceu a escola de samba Lavapés, a mais antiga agremiação em atividade do carnaval de São Paulo - neste ano no Grupo 4, o que equivale à sexta divisão.

Adoniran Barbosa (1910- 1982), o mais aclamado sambista paulista, também está eternizado nos logradouros públicos. Desde 2003, a passarela do samba do Anhembi se chama Passarela do Samba Adoniran Barbosa. E na Bela Vista há a Rua Adoniran Barbosa.

Das escolas de samba, apenas uma consta no Dicionário de Ruas da Prefeitura. Fica no bairro do Limão a Rua Rosas de Ouro, em homenagem à tradicional agremiação, fundada em 1971.

Outros logradouros fazem referência ao tema. Em Pirituba está a Rua da Marchinha. Na Vila Jacuí, a Rua do Samba. Se for aberto um pouco o leque da pesquisa, vale citar também ruas que têm nomes mais poéticos, como a Flor de Carnaval, em Ermelino Matarazzo, que alude a uma planta da família das amarilidáceas; a Travessa Carnaval de Veneza, no Tucuruvi, em referência a um filme italiano de 1928; e, no bairro do Iguatemi, as travessas Sonho de Um Carnaval e Manhã de Carnaval, respectivamente títulos de canções de Chico Buarque e de Luiz Bonfá e Antônio Maria.

Geografia do samba. Nomes de ruas à parte, é certo dizer que foram três bairros os principais celeiros do samba paulistano: a Barra Funda - principalmente no antigo Largo da Banana, onde hoje é o Memorial da América Latina -, a Bela Vista e o Cambuci. “Até os anos 1950, esses eram os maiores redutos dos sambistas. Então, podemos considerar que o carnaval de São Paulo nasceu nesses bairros”, afirma o geógrafo Alessandro Dozena, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e autor do livro A Geografia do Samba na Cidade de São Paulo (Editora PoliSaber).

Outros pontos irradiadores do samba paulistano, ainda que em menor quantidade, foram o Brás, onde havia muitos engraxates sambistas, a Lapa, com cordões importantes, a Liberdade e a Santa Cecília. “Só após os anos 1950, com a intensificação do movimento de urbanização de São Paulo, o samba começa a se espalhar por todas as regiões da cidade”, completa o geógrafo. “É quando as escolas começam a se instalar do outro lado do Rio Tietê e na zona leste.”

Culpa, de acordo com o pesquisador, da especulação imobiliária. “Os bairros mais centrais se tornam mais caros, e as populações mais pobres, ligadas à cultura do samba, acabam migrando para as zonas norte e leste”, explica.

Samba... E por quê?

E outros locais receberam a denominação ‘samba’ em São Paulo. Esses não por vontade dos moradores ou da população, mas com base em denominações retiradas do Sistema Banco de Nomes, criado por especialistas em 1975, na administração do prefeito Olavo Setúbal. É o caso da Travessa Samba-de-Roda, na Vila Medeiros; Travessas Samba da Rosa, Samba de Uma Nota Só, Samba de Gesse e Samba de Ninar, no Iguatemi, zona leste da capital paulista.

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