A Rua do Pocinho

Era chamada pelo nome antigo de Rua do Pocinho. Os mais formais diziam que era a Rua da Santa Cruz do Pocinho ou apenas da Santa Cruz. A Câmara Municipal dava nome às ruas e o povo dava-lhes apelido. É hoje a Avenida Vieira de Carvalho, uma rua das mais bonitas do centro de São Paulo, que leva da Praça da República ao Largo do Arouche. Conserva a classe de muitas ruas paulistanas dos anos 40.

JOSÉ DE SOUZA MARTINS, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2012 | 03h01

Há cem anos, aquele era um arrabalde, um recanto caipira da cidade, longe do centro confinado entre o Anhangabaú e o Tamanduateí. Nas imediações do Largo do Arouche, havia quintais que ainda tinham arbustos das velhas plantações de chá do marechal Arouche, primeiro diretor da Faculdade de Direito. Na Rua da Santa Cruz, em 1858, morava o único violeiro registrado da cidade, certo José Inácio de França.

A Rua do Pocinho devia seu nome a uma tragédia registrada na primeira metade do século 19. A meio caminho de quem vai hoje da República para o Arouche, do lado esquerdo, mandara o dono de um terreno limpar o poço de que se servia. Do lado de fora, o ajudante manejava a manivela do eixo de enrolar a corda, cuja ponta enlaçava a cintura do poceiro. A corda, porém, rebentou antes que ele chegasse ao fundo. A tentativa de salvá-lo varou o dia e varou a noite. Poço estreito e fundo, não conseguiram tirá-lo da água. Foi dado como afogado. O poço foi, então, entulhado. A piedade popular colocou sobre a tumba inesperada a costumeira cruz, para assinalar o lugar do tenebroso transe. Depois, ergueu ali a capelinha, que ficou conhecida como capela da Santa Cruz do Pocinho.

A Santa Cruz era devoção paulistana antiga. Ao redor de várias da cidade, havia três dias de festa, com leilões de prenda e comilança. Culminava no dia 3 de maio com a dança da Santa Cruz, criação litúrgica jesuítica do século 16.

Os índios tinham dificuldade para dizer as palavras com consoantes dobradas ou mudas: em vez de cruz, diziam cururu; em vez de orelha, oreia. Cururu era sapo em tupi e nome de uma dança ritual. Os padres converteram a dança do cururu na dança da cruz, em terreiro de igreja ou capela: dança de homens num par de filas, avançando e recuando. Na frente, o violeiro.

Há bela gravação do cântico dessa dança, com Carmem Costa e o Coral da Universidade de São Paulo (USP), de 1974. Em 1898, era guardião da capela e festeiro Francisco de Paula do Espírito Santo Deus, um negro criado pela família Souza Queiroz, veterano da Guerra do Paraguai.

Festa proibida. Embora seja dança religiosa, vi na aldeia de Carapicuíba leigos tentando imitá-la como se fosse carnaval. Parece-me que foi para evitar a gandaia profana que o bispo dom Duarte proibiu a festa do Pocinho em 1909. Pouco depois, foi demolida a capelinha. A religião se recolhia às igrejas. Um arranha-céu se ergueria sobre a antiga sepultura e sepultaria a memória do pocinho.

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