A resposta deve ser com inteligência - e não saindo para matar

É muito importante que, além das medidas apresentadas na terça-feira, exista um controle das ações dos agentes públicos, por meio das corregedorias

Ignacio Cano, é sociólogo, pesquisador do laboratório de análise de violência da UERJ,

07 de novembro de 2012 | 02h06

ANÁLISE - O pacote de medidas fechado entre os governos federal e paulista tem iniciativas boas e outras que não devem surtir efeito, pelo menos a curto prazo. A transferência para presídios federais tem funcionado não só para controlar melhor o comportamento dos criminosos, mas também como forma de punição. O bandido faz uma coisa aqui, o Estado manda para longe. Nessas prisões funciona o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), mais rígido, e a possibilidade de ser mandado para prisões onde existe esse tipo de regime sempre funcionou para convencer o crime organizado a desistir de determinadas ações.

O reforço do policiamento em fronteiras é perfumaria. Há um mito no Brasil de que a gente vai resolver o problema das armas, das drogas e do crime organizado patrulhando fronteiras. Não existe Exército no mundo, nem o chinês, capaz de fazer isso. O benefício é pífio, é preciso patrulhar durante meses e meses a fio para quem sabe um dia, de vez em quando, conseguir flagrar algo.

O tráfico de armas e drogas tem de ser combatido com investigação, inteligência, mas infelizmente no Brasil existe esse mito, que se junta com uma tendência dos governos estaduais de reclamar um papel mais ativo do poder federal e atribuir a responsabilidade pelos crimes a esse governo. A criação de uma agência, uma força-tarefa, é muito importante, mas essa colaboração em alguma medida já acontece, e deveria acontecer mais.

O investimento em Polícia Científica é muito importante, mas não vai gerar efeito a curto prazo nem me parece uma medida vinculada a essa situação de crise atual. As medidas de combate ao crack também não têm a ver com essa crise, embora tenham jogado no mesmo pacote.

O que a gente observa é uma suspeita de ações de vingança mútua entre policiais e membros do PCC. A gente já viu isso em 2006 e sabe que acaba mal. É muito importante que, além desses investimentos, exista um controle das ações dos agentes públicos, por meio das corregedorias. Tivemos ações da Rota com muitas vítimas e declarações públicas das autoridades legitimando de alguma forma essas ações. Em algum momento, o crime organizado começaria a matar os policiais. Ou a gente sai dessa dinâmica ou o risco será muito grande. Isso favorece os bandidos e aqueles policiais que agem ao arrepio da lei, enquanto a sociedade só perde.

As medidas têm de ser paralelas: investigar e punir aqueles integrantes do crime responsáveis por mandar matar policiais e simultaneamente identificar quais setores das polícias estão agindo ao arrepio da lei. A resposta do Estado tem de ser dada com inteligência e investigação, não saindo à rua para matar.

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