A responsabilidade de abrir o carnaval

Acompanhamos os preparativos do primeiro integrante de uma escola de samba a pisar no Anhembi neste ano

BRUNO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h00

Quando cruzou a linha amarela que separa a concentração da pista do sambódromo do Anhembi, na zona norte de São Paulo, o analista financeiro Ednilson Nascimento Martinho, de 37 anos, sabia que carregava uma responsabilidade tripla: ele seria o primeiro passista a entrar na avenida no carnaval 2012; o primeiro integrante da escola de samba Camisa Verde e Branco a desfilar no Grupo Especial em três anos e, para ele, o primeiro desfile após uma delicada cirurgia.

Ed, como é conhecido entre os membros da comissão de frente da Camisa, começou o dia tão importante com uma pequena dúvida: trabalhar hoje ou não? Funcionário de um banco americano, o analista havia recebido do chefe uma proposta para folgar no dia do desfile. "Todo mundo sabe que eu desfilo, eles ficam comentando no meu Facebook", diz. Preferiu ficar em casa e, às 9h45, fez o que qualquer pessoa de folga faria: tomou café e comeu bolachas.

"A ideia é evitar se cansar e ficar concentrado. Vou almoçar um feijão com arroz que a nega deixou e um franguinho", planejava. A mulher de Ednilson já havia combinado que passaria o dia fora. "Ela é hoteleira. Então, não tem vida, só trabalha. Vai ver o desfile pela TV."

Paixão. As explicações sobre a rotina da casa do analista, na Vila Prudente, zona leste da capital, se alternam com uma fala excitada ao descrever o carnaval e a paixão pela Camisa Verde e Branco, escola da Barra Funda, na zona oeste. "Sou de Salvador. Quando cheguei a São Paulo, entrava em comunidades (na internet) sobre a cultura negra e acabei fazendo amigos que eram da Camisa."

Desde então, já se passaram 11 anos, todos dedicados à comissão de frente da escola. "A Camisa tem uma coisa, que é só usar gente da comunidade na comissão de frente. Não temos bailarinos (como é comum entre as escolas do Rio e de São Paulo)."

A concentração continua com um cochilo e um pouco de trabalho feito em casa, pelo computador. Antes de sair, perto das 17h, Ed toma um cuidado. Grava vídeos de desfiles anteriores no tablet para vê-los instantes antes de começar a preparação, como uma espécie de inspiração. Ao contar do hábito, lembra do sufoco passado nos últimos meses.

Os ensaios para o carnaval começaram em agosto e a abertura da fístula na região da virilha foi já perto do fim do ano, o que poderia tirá-lo da comissão pela primeira vez. "Paramos de ensaiar entre o Natal e o ano-novo. Então, marquei a cirurgia para o último dia possível." Ele foi operado em 20 de dezembro. "O médico falou que iria doer desfilar, mas eu poderia aguentar. Então voltei a ensaiar."

O trajeto de casa até o sambódromo tem uma parada. Um hotel do lado do Anhembi, usado por diversas escolas para os preparativos finais. É lá que Ed - e os outros 14 membros da comissão de frente - vão se fantasiar e serão maquiados. Ele chega por volta das 18h45.

A comissão de frente tem uma espécie de "megacamarim". Diferentes partes da fantasia vão chegado aos poucos, e a ansiedade vai tomando conta do analista financeiro. "Estou tenso", confessa, desnecessariamente. Já são quase 20h e a preparação para o desfile ainda não começou.

Os oito meses de ensaios não evitam que movimentos da coreografia sejam alterados de última hora. Uma capa, que faz parte da fantasia, deixa em dúvida qual seria a melhor posição para as mãos dos integrantes - que decidem por um movimento que não mexe na tal capa.

A correria é tanta que quem não conhece os bastidores do carnaval tem certeza de que algo sairá errado. Mas o relógio ainda não chegou às 22h30 quando, meio que de repente, toda a comissão de frente está pronta. Ed e o grupo atravessam o hotel e se dirigem para o sambódromo a pé. E chegam no minuto exato em que deveriam se posicionar para começar a exibição.

Capacetes. A apresentação começa com uma promessa de sucesso. Os gritos da arquibancada contrastam com o sorriso quase que estático de quem tem na cabeça não só a missão de entreter o público, mas sabe de tudo o que aconteceu até aquele instante. Ed grita o samba-enredo e caminha com passos firmes, exatamente como seus colegas.

Os capacetes da fantasia da comissão balançam na cabeça dos integrantes - e um deles chega a cair duas vezes, o que certamente vai tirar pontos da escola. Mas, à 0h38, quando entra na dispersão, Ed não pensa nisso. Comemora a vitória pessoal e o empenho de seu grupo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.