Daniel Teixeira
Daniel Teixeira

A requintada cozinha do Zoo

Bichos se deliciam com franguinhos criados sem hormônios, leite de soja e frutas secas raras - tudo com calorias contadas e balanceadas

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2011 | 00h00

Os habitués dos restaurantes mais estrelados da capital paulista sentiriam uma ponta de inveja se vissem a deferência com que os nutricionistas do Jardim Zoológico de São Paulo tratam os bichos.

Em uma visita à "cozinha" do zoo, a Expedição Metrópole pôde observar que até a barata que se serve a um anfíbio é limpinha. A ratazana, um primor. Nenhuma sordidez no histórico, nada de esgoto, bueiro ou promiscuidade. Enquanto vivem, não sentem calor nem frio - são criadas a 25ºC controlados.

"Pode ser até que o "avô" de um rato criado aqui tivesse leptospirose, porque pegou na sujeira do lugar onde vivia. Mas o "neto" já é saudável", explica o biólogo Felipe Andrade, de 25 anos, que ciceroneia a visita.

Morador da Vila Maria, na zona norte, Felipe conta que acorda todos os dias às 3h45 para conseguir chegar ao zoo, na Água Funda, zona sul, às 6h. Não à toa, diz que ama bichos. E defende a necessidade de sacrificar alguns.

"Matamos por amor. Para alimentar outros", afirma ele, de passagem pelo galinheiro de aves caipiras, criadas sem hormônios. Os franguinhos ali são franzinos e aparentemente mais tristes do que os bombados que habitam o cercadinho ao lado - mas ambos terão o mesmo destino trágico: a boca de um carnívoro.

Parcimônia. Diariamente, os cerca de 3 mil animais do zoo consomem, sem batalhar muito, de 3 a 4 toneladas de alimentos - ou o equivalente a R$ 50 mil. Parece muito, mas come-se menos ali do que em vida livre. "Os animais criados em cativeiro gastam menos energia", diz Felipe. "Calculamos o consumo calórico do animal livre, em relação ao que ele come, para ter uma equivalência no cativeiro."

Frutas, legumes e carnes são separados em um galpão de 300 metros quadrados, com mais de 10 metros de pé-direito e pelo menos seis bancadas destinadas ao preparo de refeições de acordo com o bicho que vai comer. Tem a seção dos herbívoros, dos carnívoros, aves, primatas, répteis e, claro, as de dieta especial. Experimente não dar a papa do tamanduá na consistência correta. Ele vira as costas e vai embora. Leite de vaca? Esquece, dá diarreia. Só de soja.

A arara leari, considerada extinta na natureza, tem o que os nossos cicerones classificaram de "o paladar mais delicado do zoo". Nem a socialite emergente Val Marchiori, que só toma champanhe Veuve Clicquot em copo banhado a ouro, parece tão exclusivista.

Em sua fleuma de bicho raro, a leari não admite ciscar nada que não seja um tipo de coquinho oleaginoso, que nasce apenas no cerrado mais remoto do sertão do Nordeste. Entre os humanos, é consumido por praticantes de esportes e tem entrado em cardápios de restaurantes sofisticados.

Patrícia Alexandrini, responsável pelo setor de compras do zoo, não para de dar exemplos de "luxo e riqueza" no mundo animal. Ela trabalha em uma sala repleta de embalagens de comida, inclusive para bebê humano, como o leite Nan, servido também para animais na versão especial "sem lactose".

Se uma cobra está estressada, explica Patrícia, ou apática, é preciso dar estímulos para que ela saia da fossa. "Recomenda-se mudar os hábitos alimentares dela, ou a forma como a comida (ratos e insetos) é servida, para que ela quebre a rotina", diz Patrícia, que adora cobras e se refere a elas como criaturas extremamente injustiçadas.

Sardinha, não. O passeio continua e, nas imediações do lago do zoo, o tratador Rodrigo de Oliveira, de 30 anos, oferece sardinhas a um farfalhante grupo de pelicanos. "Eles curtem mais manjuba", explica Rodrigo, que trouxe uma quantidade maior dos peixes por causa dos animais de vida livre que bicam a comida dos outros. Um horror.

Tudo que se oferece aos animais é acondicionado em bandejas separadas por cor. A dos primatas é preta; a dos herbívoros, marrom; carnívoros são servidos com vermelhas e aves, azuis. "É para não confundir os tratadores que levam aos recintos (jaulas)", diz Felipe.

No recinto do hipopótamo, Tetéia, uma fêmea de estimados 53 anos, esnoba peremptoriamente um maço de hortaliças que Felipe estende para ela. Tetéia está tristonha, e com razão. Ela enfrenta uma crise de artrose e vai ser submetida a exames delicados. Exibida, deixa-se fotografar rapidamente pela reportagem e se retira. Tetéia não receberá visitas nos próximos dias. Vamos torcer por ela.  

 

 

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