''A reciclagem poderia tirar pessoas da rua''

Catadores às vezes não dão conta da demanda e reclamam de falta de apoio do poder públicoCarga. José Carlos Alves dos Santos, de 55 anos, chega a levar 300 quilos de papelão

, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2010 | 00h00

Além de diminuir o desperdício e preservar o ambiente, a reciclagem do lixo tem importante função social. Em 43% dos 405 municípios que fazem coleta seletiva, a triagem do lixo é feita por cooperativas de catadores, boa parte formada por carroceiros e moradores de rua.

Em São Paulo, o lixo reciclado é separado nas centrais de triagens pelas cooperativas de catadores associadas à Prefeitura, que vendem o material para as empresas. O ganho mensal médio de um cooperado conveniado é de R$ 700. Como são poucas as centrais de triagem, existem mais duas alternativas aos carroceiros: Atuar em uma cooperativa não conveniada ou fazer o serviço de forma autônoma. Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, há 94 grupos organizados na capital paulista, entre associações e cooperativas. Dessas, apenas 16 são conveniadas.

O catador José Carlos dos Santos, de 55 anos, sobrevive do material reciclável arrecadado em caçambas e edifícios que ainda não aderiram à coleta oficial de porta em porta nas ruas de Perdizes, na zona oeste. Após um dia de trabalho, ele chega a carregar 300 quilos em seu carrinho. Vende tudo a um ferro-velho e ganha cerca de R$ 800 por mês. Catador autônomo desde que chegou, nunca quis entrar em uma cooperativa.

O catador Gilson Loiola, de 33 anos, também pensava assim, mas mudou de ideia. Após trabalhar 12 anos como autônomo, há dois, ele decidiu trabalhar na Cooperglicério. "A Prefeitura fechou muito ferro-velho, não tive opção. Mas a cooperativa é mais organizada, conseguimos preços melhores para o material." Para ele, se a coleta depender só da municipalidade, "não vai para frente". "Não há estrutura, caminhões não dão conta de tudo."

Sem convênio. A Cooperglicério, onde Gilson trabalha com outros 40 catadores, também não é conveniada. Sua área, embaixo do viaduto de ligação com a Radial Leste, é cedida pela Prefeitura, mas todos os outros gastos são rateados entre cooperados, que têm apoio de empresas.

Os lucros são divididos e, após cinco anos, a cooperativa vai comprar sua primeira prensa. Hoje, o único equipamento que auxilia o trabalho é uma balança emprestada. "Protocolamos vários ofícios para tentar nos credenciar na Prefeitura. Por mais preparado que a gente esteja, eles criam obstáculos", diz Romeu Sérgio Bueno, de 55 anos, presidente da cooperativa. Para ele, é "absurdo" o carrinho ainda ser usado. "Puxamos porque precisamos, não porque gostamos. É desumano, não temos estrutura óssea para isso."

Sem equipamento. Nas cooperativas conveniadas, apesar do apoio oficial, há dificuldades. Com 90 pessoas, a maioria ex-moradores de rua, a Coopere-Centro tem uma esteira e quatro prensas, mas a falta de outros equipamentos faz com que muito material seja vendido a atravessadores. Outro problema, para o coordenador Sergio Luis Longo, é a dificuldade em atender a toda a demanda dos moradores. "Estamos sobrecarregados. Às vezes, a população separa o material e não conseguimos pegar."

Para ele, é preciso ampliar as equipes e o número de caminhões de reciclagem. "Falta apoio do poder público para a coleta. A reciclagem poderia ser usada para dar mais empregos e tirar mais pessoas da rua."

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