A rainha secreta da música

A rainha secreta da música

Pelo escritório de Anna Butler na Pompeia passaram bandas e artistas que eram desconhecidos, mas se tornaram os maiores representantes do pop e do rock

Valéria Franca, O Estadao de S.Paulo

28 Março 2010 | 00h00

Mais que reduto de artistas e afins, a Pompeia, na zona oeste, transformou-se num ponto estratégico do rock nacional. Ali funciona o escritório de Anna Butler, de 43 anos, uma figura que dificilmente aparece em público, mas que "causa" no mundo do show biz. Ela tem faro musical. Sabe se uma banda tem potencial para o sucesso. Planet Hemp, Virna Lisi, Raimundos, Skank, Pato Fu, Cachorro Grande e NX Zero são alguns grupos que começaram pelas suas mãos.

"É difícil medir qual é hoje seu alcance, porque ela sempre esteve no olho do furacão, ocupando postos-chave", diz o produtor musical Eduardo Miranda. Durante mais de dez anos, Anna foi diretora do núcleo de relações artísticas da MTV. "Pela minha sala passavam todas as bandas, desconhecidas e famosas, que desenvolviam projetos com a emissora", conta Anna.

A produtora também ficou conhecida por desenvolver projetos audaciosos. Foi dela, por exemplo, a ideia de juntar David Byrne, ex-líder da banda Talking Heads, e Caetano Veloso. O baiano estava com apresentação marcada no Carnegie Hall, em Nova York, em 2004. A presença de Byrne foi a cereja do bolo em seu show, que ganhou ainda mais repercussão.

Anna também promoveu parcerias que muitos duvidavam que dariam certo. Uma delas foi a dos Paralamas do Sucesso com a banda paraense Calypso. O sertanejo Chitãozinho e os roqueiros gaúchos do Fresno também estão entre os encontros improváveis que, além de dar certo, ainda rendem frutos com apresentações esporádicas.

"Ela ajudou 99% do pop. Virou a rainha secreta do rock", resume Miranda. Anna sempre foi ligada à música. Tanto que, apesar de não dar importância às datas - ela não sabe responder, por exemplo, há quantos anos namora Nando Reis -, não apaga da memória o dia da morte de John Lennon. "Foi 8 de dezembro de 1980. Fiquei tão deprimida que minha mãe me deixou faltar à escola", conta. Na época, ela estudava numa escola pública em Laurel Canyon, em Los Angeles.

"Quando tinha 6 anos e morava no Rio, sonhava que os Beatles se apresentavam na escola (no Colégio Teresiano, na Gávea)." Foi aos 13 anos que ela mudou com a família para os Estados Unidos. Dez anos depois, já no Brasil, trabalhando como tradutora e intérprete, foi escalada para acompanhar Paul McCartney no Rio. "Estava sentada no ônibus quando ele entrou, lindo, de camisa branca, olhando para mim. Tudo bem, eu era a única desconhecida. E se apresentou. Achei que ia desmaiar." Anna permaneceu impávida. "No percurso, ele foi ao meu lado, perguntando coisas sobre o Brasil", lembra. Depois da coletiva, pediu que Anna fosse ao camarim e perguntou sobre o show. Ela quase explodiu de felicidade.

Pouco tempo depois, quando a monotonia no escritório de um tio tomou conta, ela voltou aos EUA. E uma vez lá, decidiu se casar com Dylan Butler - com quem mantinha um namoro de idas e vindas e depois teve um filho, Brian, de 11 anos. Escolheu uma capela em Las Vegas que exibia uma placa: "Jon Bon Jovi casou aqui."

Meio de campo. O inglês fluente, a facilidade de se relacionar socialmente, a simpatia e o interesse pela música fizeram com que fosse chamada a ajudar a montar a MTV no País. "Ela é muito aberta ao novo desde o início da carreira", diz Rick Bonadio, produtor musical que lançou grupos como os Mamonas Assassinas. Quando ela acredita numa banda, investe pessoalmente, liga para produtores e gravadoras e coloca todos em contato. "Ela é querida, e consegue fazer bem o link entre empresários e artistas."

A produtora vai além. Hoje, o guitarrista da banda gaúcha Cachorro Grande, o Boizinho, mora nos fundos de seu escritório e usa o porão para ensaiar. "Sua opinião é quase como um selo de garantia", diz Miranda. "Quando ela diz "ouve isso", é para prestar atenção mesmo."

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