A professora que enfrentou a tropa

Ato fez Lenita virar símbolo de movimento

ADRIANO BARCELOS / RIO, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2013 | 02h02

Quem vê a professora Lenita Leite de Oliveira Fernandes, de 52 anos, em casa, em Realengo, zona oeste do Rio, rodeada por seus bichos - dez gatos e um cachorro -, não desconfia que seja a mesma pessoa que, dedo em riste, parou diante de 18 PMs munidos de cassetetes, escudos e bombas na Cinelândia, no centro, na tarde de terça-feira.

A imagem, registrada pelo fotógrafo Fábio Motta, do Estado, estampou jornais e teve intensa divulgação na internet. O ato de coragem fez de Lenita uma espécie de símbolo involuntário do embate entre educação e repressão policial aos manifestantes. Nada que mude a rotina simples de cuidar dos dois filhos, do marido e de seus alunos de 4 anos da Escola Municipal Afonso Henrique Saldanha, em Realengo.

A pergunta que Lenita mais tem ouvido é: "O que você dizia para os policiais?". Várias legendas possíveis circulam nas redes sociais - algumas até bem próximas da realidade. "Eu disse: você veio para bater em professor? Eu posso ser professora do seu filho, mas se você quer bater, pode bater." Ela conta ter visto um dos policiais rodando o cassetete sobre a cabeça, para bater em um professor. Daí teria vindo a coragem.

O marido, Sérgio Ricardo Fernandes, de 44, dono de um restaurante em Bangu, só ficou sabendo que Lenita iria ao protesto quando ela já estava a caminho. "Ele só disse para eu não me machucar", relembra.

Inicialmente, a repercussão da foto a assustou. Pensou em se recolher, evitar entrevistas, mas cedeu. A condição era que o espaço servisse para "expressar a realidade da categoria".

Lenita não é do Sindicato dos Profissionais de Ensino do Rio (Sepe) nem filiada a partidos políticos. Lamenta a derrota da categoria no plano de carreira, aprovado pela base aliada do prefeito Eduardo Paes (PMDB), mas combatido pelo Sepe - e comemora a volta dos professores à mobilização. "Passamos 19 anos de boca calada. Isso nunca mais vai acontecer", prevê Lenita, que ganha R$ 1,7 mil por 22 horas.

A professora agora quer tranquilidade. Voltar aos preparativos para o bloco que organiza, o Meia Dúzia de Gatos Pingados, que sairá pouco antes do carnaval.

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