Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

A primeira-dama da segurança do Rio

Rita Paes, Mulher do Secretário de Segurança Pública

Márcia Vieira, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2010 | 00h00

Os únicos sinais de vaidade são os cabelos castanhos escuros bem escovados e um colar dourado. A roupa é despretensiosa. Calça jeans, camiseta de malha azul e sapatilha creme. Aos 45 anos, Rita Paes é elegantemente discreta. Tem 1,65 metro, pesa uns 50 quilos e costuma se apresentar apenas como Rita, apesar de há seis anos ser a mulher do secretário mais popular do governo do Rio de Janeiro, o de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, de 53 anos. "Se eu falar que sou Rita Beltrame, vão pensar que estou querendo dar carteirada."

Não é do seu feitio. Professora de Educação Física da rede estadual de ensino, Rita deixou o trabalho a contragosto por questão de segurança. As duas escolas onde dava aulas, no subúrbio, ficam em favelas não pacificadas. Saiu das escolas, mas não das favelas. Desde que há dois anos o marido criou as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), Rita virou uma espécie de braço social da política de segurança.

Ela percorre diariamente as favelas ajudando no que é possível. Viabilizou creches e cursos profissionalizantes nas comunidades. Organizou baile de debutantes na Providência, festa da terceira idade no Batam, onde dançou com o marido, comemoração de Natal no Dona Marta. Na quinta-feira, saiu correndo do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, para agradecer a empresários que visitavam o Borel, na Tijuca, dispostos a bancar a festa de Natal dos moradores. Desde julho, trabalha na Secretaria de Direitos Humanos e Ação Social, responsável pela UPP Social, que pretende levar cidadania para as favelas pacificadas. "Eu faço o que posso para ajudar esses comandantes das UPPs a ter empatia com os moradores", explica.

A mulher do secretário faz sucesso nas favelas. "É bom falar com a dona Rita porque ela entende a gente e vai buzinar direto no ouvido do Beltrame, entendeu?", explica José Lins Filho, de 57 anos, líder comunitário do Morro dos Macacos, sede da mais nova UPP.

Rita não "buzina" no ouvido do marido. "Nem pensar. Ele já tem muito trabalho." Seu estilo é ficar à sombra do secretário, que ela, assim como os amigos, chama de Mariano. Foi assim nesta semana, a mais tensa desde que Beltrame assumiu o cargo, há quatro anos. A série de ataques do tráfico de drogas ao Rio, que resultou em 105 veículos incendiados em 11 dias, deixou Beltrame confinado no prédio da secretaria por até 20 horas por dia.

Vida normal. Nos momentos mais tensos, de quinta (25), dia em que a polícia tomou a Vila Cruzeiro, a domingo, quando o Complexo do Alemão foi dominado, Rita se juntou ao QG montado pelo marido. Passou horas lá organizando almoço e lanche para os envolvidos na operação. E tentou seguir à risca o conselho que o marido deu a todos os cariocas assustados com os ataques: não se intimidem, levem vida normal. "Eu não podia ficar trancada em casa." Todos os dias, pegava o filho e ia à praia no fim da tarde, acompanhada de seguranças à paisana.

Daqui a uma semana, os Beltrames comemoram o aniversário de 1 ano de Francisco, o terceiro filho do secretário. Do primeiro casamento, ele tem um casal de filhos, de 18 e 20 anos. Rita tem dois filhos adotados.

A mais velha, de 18 anos, estuda Direito e - por que será? - quer ser delegada. Seu outro filho leva uma vida típica de adolescente de 14 anos no Rio. A gravidez de Francisco foi uma adorável surpresa. Afinal, mulheres de 44 anos só engravidam com tratamentos complicados e doses generosas de hormônios. O que não foi o caso dos Beltrames.

Vasco e carnaval. Rita é "carioquérrima". Não do tipo que frequenta a Praia de Ipanema desde sempre. Isso é coisa recente. Ela nasceu em Madureira, no subúrbio do Rio, berço do samba. É louca por carnaval e adora o Salgueiro. É a quinta filha da prole de seis de um ferroviário e uma dona de casa. Passou a infância em Deodoro, também no subúrbio. Foi recepcionista e jogadora de polo aquático do Flamengo. Largou no meio a faculdade de Psicologia para estudar Educação Física, sua grande vocação. É vascaína, mas fica toda boba mostrando a foto do filho Francisco com a camisa do Internacional, time de coração do marido.

Os dois se conheceram quando ele nem sonhava ser secretário. Era delegado da Polícia Federal em missão no Rio. Vivia enfurnado no prédio da PF envolvido na Missão Suporte, que investigava tráfico de drogas e armas. Foi em um ensaio do Salgueiro na Tijuca, zona norte, que os dois se conheceram. Beltrame ia pela primeira vez. Rita era frequentadora assídua.

Rita ajuda Beltrame a levar vida de carioca. Há pouco mais de um ano, a família trocou a Barra da Tijuca pela delícia de viver em Ipanema, entre a Lagoa e o mar. "Essa vida que a gente leva é efêmera. Um dia ele não vai mais ser secretário. Temos de viver uma vida normal." Ou pelo menos tentar. Rita continua, por exemplo, a dar aula de Educação Física em uma escola particular da zona oeste.

O casal costuma sair para fazer compras de supermercado no bairro, sempre acompanhado, é claro, por seguranças. Beltrame, de chinelos e bermudas, carregando sacolas com alface e batata no meio de Ipanema não é uma cena fácil de imaginar. Tão surreal que quem vê duvida. "As pessoas olham, reconhecem, mas ficam achando que não pode ser o secretário", conta Rita, rindo.

Chope em pé. O casal também gosta de ir aos bares do bairro. Beltrame só não entende por que carioca tem mania de tomar chope em pé. "Ah, Mariano, porque o carioca está sempre só passando, indo para outro lugar", costuma explicar Rita. Vida normal mesmo eles levam nas curtas viagens que Beltrame faz fora do País a trabalho. Em Berlim, andaram de ônibus.

Em Dallas, sentaram no chão do aeroporto esperando o avião sair. Cenas que não combinam com a imagem séria do secretário. "Você não vai acreditar, mas o Mariano é muito engraçado."

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