'A primeira coisa que fiz, com tanta gente falando, foi chorar'

Pediatra foi enviada para Goianorte sem saber nada de português; seu único auxílio foi uma freira boliviana

PALMAS, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h04

A pediatra e clínica geral Rosabel Andino Rose Dias tinha 32 anos, em 1998, quando chegou ao Tocantins. Depois de passar por treinamento, ela foi enviada para Goianorte, a pouco mais de 220 km de Palmas, aonde chegou sem saber nada de português. "Todas as pessoas que me rodeavam eram brasileiras. A primeira coisa que fiz, com tanta gente falando, falando, foi chorar", lembra Rosabel. "Mas pensei: estou aqui e vou ter de enfrentar esta realidade."

Primeiro, tinha de aprender o português. "Como estava sozinha, numa cidade onde todos falavam português, foi muito fácil", conta. Além disso, no hospital, gerenciado pela Santa Casa de Anápolis (GO), tinha uma freira boliviana, que falava espanhol e português e a acompanhava durante as consultas.

Rosabel ficou quatro anos e meio trabalhando como única médica do hospital de Goianorte. "Uma vez por mês, um profissional de Palmas ia à cidade, no fim de semana. Era quando eu descansava." Um ano depois, fez o Revalida e obteve o registro no CRM.

Em 2002, terminado seu contrato, já casada e com filho, Rosabel resolveu ficar no Estado. Considerada desertora por Cuba, foi proibida de retornar ao país. Sua volta só foi autorizada no ano passado, pelo governo de Raúl Castro.

Hoje, mora em Paraíso, a 60 km de Palmas, onde tem consultório e também faz plantões numa Unidade Básica de Saúde (UBS). Para os estrangeiros que pretendem vir para o Brasil, faz um alerta: "Tem de estar preparado para agir, para salvar vidas", levando em conta que, além de faltar médicos, há falta de infraestrutura.

Elogios. O trabalho de médicos cubanos, como Rosabel, é elogiado por colegas e pacientes. Para Maria da Guia Pereira de Oliveira, paciente de Rosabel na UBS, não importa a nacionalidade do médico. "Se tem competência para saber o que a gente sente e de passar o remédio certo, não importa de onde vem." Ela ainda elogia a médica cubana nacionalizada brasileira. "É atenta e trata a gente com respeito", diz.

A enfermeira Eliane Lopes da Silva trabalha na UBS de Paraíso. Há 24 anos no Tocantins, Eliane acompanhou a chegada dos cubanos nos anos 1990 e os desafios enfrentados pelos profissionais. "Como trabalhavam com pessoas muito pobres, de assentamento, eles tinham dificuldade de entender o que eles falavam. Eu sempre sentava para ajudar a explicar, facilitando a comunicação."

Assim como Rosabel, Eliane afirma que a falta de estrutura nos hospitais foi um dos grandes problemas enfrentados pelos médicos cubanos. / C.B.T.

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