A porta da frente

A arquitetura das moradias populares e mesmo a da classe média vem sofrendo transformações, sobretudo depois que migrou da mente dos velhos pedreiros construtores para a prancheta dos arquitetos. Em favor do primado da forma, a casa foi perdendo o conteúdo simbólico das portas, das janelas, dos cômodos, do lugar dos móveis. Foi deixando de ser lugar dos moradores situarem-se na trama simbólica do mundo. Foi dela desaparecendo a dimensão do sagrado, a poderosa dimensão mística a ela associada como lugar de fecundação e nascimento.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2012 | 08h42

Nos bairros operários e no subúrbio, situadas em terrenos baratos e relativamente grandes, construídas à beira do passeio, as casas conservaram por muito tempo um corredor lateral para as flores. Até passarem pela fase, relativamente breve, dos anos 1940 e 1950, do frontispício recuado e do pequeno jardim de acesso, cheio de roseiras, dálias, margaridas, cravos, rainhas-margaridas, cristas-de-galo, violetas. Foi quando a entrada da casa deixou de ser pela cozinha, lá nos fundos, para ser por uma porta de frente que dava acesso à sala e interditava a intimidade da casa aos visitantes e, portanto, aos estranhos. A arquitetura da casa tornou-se a arquitetura das distâncias sociais.

Foram deslocadas do corredor lateral para o jardinzinho da frente as plantas dotadas de poderes mágicos, que erguiam muralhas invisíveis contra o mau-olhado dos invejosos, antes que entrassem na casa: arruda, guiné, espada-de-são-jorge, comigo-ninguém-pode, planta, aliás, venenosa. Várias delas eram usadas em defumações para espantar de dentro de casa os invisíveis malefícios invasores de visitantes nem sempre bem-vindos.

Por sim ou por não, um pavoroso elefante vermelho de louça descansava sobre o móvel principal da sala. Prevenia contra maus-olhados e invejas que não tivessem sido filtrados pelas plantas da entrada. E, ainda por cima, alguma figa em lugar visível. O poder simbólico da figa vinha do fato de que é uma representação do coito, da fecundação e da vida contra a morte trazida pelo mau-olhado e pela inveja. Sem contar a ferradura, com as pontas viradas para cima, pregada em lugar bem visível do cômodo de entrada.

Mas a porta da frente enfrentou as resistências poderosas do costume e da tradição. Quem fosse convidado a entrar por ali ficava ofendido, pois o gesto indicava que era considerado "de fora" e não "de dentro". A porta da frente não acolhia, repelia. Não é estranho, portanto, que era porta aberta no mais das vezes nos raríssimos dias de velório para que por ela saísse o defunto, os pés voltados para fora e a cabeça para dentro, o inverso da posição de nascimento. Como as camas: os pés nunca voltados para porta de saída. A casa era uterina e a porta, na significação invertida, acabava simbolizando a morte.

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