Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

A pianista que vai de Chopin à moda praia

Aos 24 anos, a também modelo Juliana D'Agostini lança na terça-feira seu 2º CD de música erudita e em agosto grava o 3º. Entre um e outro, desfila em Miami

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2011 | 00h00

O talento da pianista Juliana D"Agostini, que também se apresenta como modelo, foi descoberto quando ela tinha 5 anos e o caminhão de gás passou na rua tocando uma versão de Pour Elise.

"Corri para o piano e imitei o som de ouvido. Todos ficaram impressionados. Minha avó disse: "Precisamos colocar essa menina para ter umas aulas"", conta Juliana, de 24 anos, enquanto se levanta na ampla sala da casa onde mora, no Jardim Europa, e se dirige ao Fritz Dobbert de cauda para mostrar sua interpretação do clássico de Beethoven.

Um metro e setenta e cinco, 45 quilos, cabelos louros acinzentados "naturais", ela desembarcou para a entrevista de um Mini, falando ao celular, dentro de uma jaqueta de náilon preta debruada de plumas idem.

"Quase morri de emoção quando a vi tocando outro dia. Aos 5, 6 anos, a Ju já levava muito a sério as lições", conta a professora da época do caminhão de gás, Milene Zaccaro, de 42.

Bullying. Garota de classe média dos Jardins, filha de professora e "aluna CDF" do centenário Colégio Dante Alighieri, de tradição italiana, Juliana diz que foi alvo de bullying na escola. "Eu era a loirinha esquisitinha, que tinha asma e tocava piano."

Já tornada cisne, cursou a faculdade de música da Universidade de São Paulo (USP), ganhou bolsa para estudar performance no New England Conservatory, de Boston, e lá recebeu um convite para ser modelo. "Estava na rua quando um agente me parou e perguntou se eu queria fazer um book (de fotos). Aceitei na hora. Achei que aquilo me abriria portas para a carreira internacional que eu planejava ter e ainda me ajudaria em dólares."

Gisele. O pianista Caio Pagano, de 71 anos, com quem Juliana teve aulas no Arizona, diz que a moça é mesmo "muito empreendedora". "Além de talentosa, ela está sempre em movimento, cavando oportunidades, e é muito bonita. Tem aquele corpo esguio de Barbie, Gisele Bündchen." Recentemente, Juliana abriu com a Tarantella, de Liszt, um concerto em que Pagano apresentaria Rachmaninov.

Apesar de reafirmar que se sente "traumatizada" pelo passado de filha de professora, "ainda mais em um ambiente conservador como o do Dante", ela diz que frequenta o colégio até hoje. "O seu Messina (diretor) é muito amigo. Eu e o Pagano, que também foi aluno, temos concerto marcado lá em agosto."

Garota estudiosa, ela afirma que passa oito horas por dia ao piano e, por isso, não sai muito à noite. Diz que gosta de jantar no japonês Nagayama e nos italianos Pizzeli e Gero. Nessas ocasiões, leva junto a disciplina da modelo e também a da pianista. "Raramente como mais do que uma salada e um grelhado."

Quase pedindo desculpas pela inegável vaidade, ela cruza as pernas esguias, ajeita os cabelos e diz que frequenta a academia pelo menos três vezes por semana, "até para fortalecer minhas costas". "São muitas horas sentada na mesma posição (ao piano), acabo forçando a lombar."

Daslu. Sobre os ambientes carregados de alpinistas sociais que a empreendedora Juliana se diz obrigada a frequentar, ela afirma que não tem muito em comum com eles. "Não gosto de playboys, de ricos exibicionistas, de pessoas que não ganharam dinheiro trabalhando. Vou a esses lugares, porque eles são o público dos meus concertos. Então, de repente, estou em uma festa e chega o Kassab. Alguém nos apresenta, ele pega meu disco, mostra interesse em ouvir. Isso, pra mim, é muito importante", acredita Juliana, que lança seu segundo CD na terça feira. Onde? Na Daslu.

O tempo todo a pianista escorraça a modelo. "Só pintei a unha uma vez na vida, mas achei que não combinava com o que eu faço. Me senti meio fútil, sabe? Tirei tudo no dia seguinte", lembra.

Pó iluminador. Juliana conta que, no meio da moda, quando alguém descobre que ela toca piano, reage com incredulidade. "Sempre perguntam: "sério?"" Para provar que é até mesmo concertista, ela leva no celular um vídeo com suas apresentações. Diz ela que seu grande desafio foi mostrar que ela não era "uma mulher bonita que toca piano, mas uma pianista que é bonita".

Com uma espessa camada de pó iluminador da MAC no rosto, ela conta que está embarcando depois do lançamento de seu disco para a Fashion Week de Miami. Foi convidada para participar "como artista" do desfile de moda praia Poko Pano. Mas nada de colocar biquíni. Vai usar apenas uma túnica, ou uma produção que não comprometa a pianista. "Não tem muito a ver, né?"

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