A perua vã

Neste domingo ela faz anos - mas vamos devagar com as comemorações. Nada de bolo, até porque a aniversariante não precisa de vela para pegar fogo. Suicida, é capaz de combustão espontânea. Homem, seria um fauno; mulher, uma ninfomaníaca a arder sozinha. Se alguma dúvida eu tivesse, teria sido incinerada faz uns dias, quando, no curto trajeto de São Paulo a Santos, vi duas delas a despejar fumaça.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h04

Estou falando - você já percebeu - desse anacronismo automotivo chamado Kombi, cuja produção no Brasil começou em outro 2 de setembro, 55 anos atrás. Estou longe de ser autoridade no assunto (neste ou em qualquer outro), mas falo com a segurança de quem acaba de fazer um tour pelo site da fábrica. Como crônica eventualmente também é cultura, ainda que vã, deixo aqui migalhas do saber lá recolhido.

O pão de forma de lata que vemos torrar nas ruas e estradas - em virtude, se bem entendi, da temerária proximidade entre o distribuidor e a mangueira de gasolina - saiu do forno em 1950, quando a Volkswagen comprou a ideia do holandês Ben Pon de uma perua com chassis de fusca. No Brasil, o trambolho começou a ser montado em 1953, com peças importadas, e a partir de 1957 com 50% de peças nacionais. Fim de verbete.

Nada disso me interessaria minimamente, não fosse o fato de meu pai ter sido, em 1958, um dos primeiros donos de Kombi no País. Que mais poderia escolher quem teve 11 filhos? Para não falar na coisarada que ele transportava em suas expedições de passarinheiro amador. Até mandou fazer uma cama desmontável que ocupava todo o espaço dos bancos de trás. Para evitar barbeiros (não os maus motoristas, mas o inseto transmissor do mal de Chagas), nos cafundós onde se enfiava, era ali que meu pai dormia.

Gozado, não me lembro de Kombi pegando fogo naquele tempo - e olha que fizemos viagens puxadas como aquela em 1960, para a inauguração de Brasília. Acho que ela ainda não tinha autossuficiência pírica, ou seja, não ardia sozinha. Será que a mangueira passava longe daquele ponto G em que hoje provoca tanto incêndio?

Na estrada, a Kombi quase resolvia nossa disputa para viajar junto à janela. Embora sem charme de cinema, fomos um pouco como o clã da pequena Miss Sunshine. Na cidade, o deselegante furgão motivava os gozadores. "Padeira!" - ouviu mamãe na rua mais de uma vez, ao levar filhos à escola (função na qual, contabilizava, completou bodas de prata). Uma vantagem da Kombi, dizia a d. Wanda, era desestimular peditório de mendigo.

Em compensação, sua ambivalência funcional suscitava equívocos. "O senhor faz carreto?" - indagou uma senhora a meu pai, numa beira de calçada. (Precisava de quem transportasse uma raspadora de pisos - e não é que o velho Hugo, prestativo, esteve a pique de encarar a parada?) Uma vez, na entrada da rodoviária, um guarda perguntou a um de meus irmãos se já tinha feito a boa ação do dia - e, sem esperar resposta, abriu a Kombi para um estridente grupo de cantadores cegos do interior de Minas, que o Marcos, bom samaritano a contragosto, teve de levar até o estúdio da Globo. Outro irmão, o Flávio, que tinha ido comprar passagem, chegou nesse momento, e ao dar com a cena quedou estarrecido, enquanto em meio à cantoria o Marcos gargalhava.

Na adolescência, minhas irmãs se tomaram de vergonha pela Kombi - tratavam de apear a boa distância do colégio ou festa, temerosas de que mesmo sem incêndio a fuleirice sobre rodas lhes queimasse o filme. "Você não tem carro", dizia ao papai o Flávio, que tinha vistas altas - e escandia: "Você tem con-du-ção!" O que não o impediu de bater "pegas" com a instável caranga paterna. Ele não viveu para ver o crepúsculo da perua cinquentona, numa decadência que já não comporta plástica e botox. Dizem que está para sair de linha. Das fábricas que havia pelo mundo, resta a brasileira, que em outros tempos aprovisionou vários países. Hoje, só a Inglaterra compra. Não me pergunte por quê. Será que tem a ver com o fato de que lá o pessoal gosta de dirigir na contramão?

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