A perua de SP que foi para o horário nobre

Clô, personagem de Irene Ravache na novela ''Passione'', poderia até morar em [br]outra cidade, mas continuaria tipicamente paulistana, diz o autor Silvio de Abreu

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

01 Agosto 2010 | 00h00

Um arranca-rabo entre vizinhos no Morumbi, na zona sul de São Paulo, pegou a atriz Irene Ravache de surpresa. Depois de ser recebida calorosamente pela população de bairros das zonas norte e leste desprezados pela personagem Clô que ela interpreta na novela Passione, Irene estranhou aquela barulheira justamente na região tida como de elite.

O texto era uma ode ao Morumbi. A atriz não se lembra exatamente frase por frase, mas diz que era algo como: "Isso é que é bairro de gente fina, olha como os passarinhos piam diferente, o ar é puro, tem muito mais verde."

"De repente, no meio daqueles casarões que a Clô tanto admira, começou uma discussão horrível, os dois aos berros. A coisa foi tão feia que eu precisei de uma dose maior de concentração para dizer o texto", conta a atriz, que tem quase 50 anos de profissão.

O Morumbi abriga locações para cenas que se passam no Jardim América, bairro da zona oeste para onde Clô acaba de se mudar. A personagem nasceu em Vila Monumento, na zona leste, mas prefere localizar sua origem no Cambuci, região central, que ela considera um pouco melhor.

Enfim, são referências que o telespectador paulistano, por mais ignorante que seja a respeito dos bairros da cidade, tem muito mais condições de entender do que o do resto do País.

"No Rio não existe Clô. É um personagem totalmente paulistano", acredita Irene, de 66 anos. Carioca de Laranjeiras, a atriz migrou para São Paulo aos 22, o que, com o seu indiscutível talento, só a ajuda a compor a Clô.

Silvio de Abreu, o autor de Passione, afirma que "a Clô poderia estar em outra cidade, outro Estado, até outro País, mas continuaria sendo paulistana". Nascido em São Paulo, Silvio explica que, "por mais que a personagem tenha traços comuns a muitas mulheres (é vaidosa, exagerada, divertida e sabe o que quer), é muito mais fácil escrever sobre aquilo que você conhece de perto".

A despeito do que se possa imaginar, Silvio de Abreu não recebeu reclamações (nem por e-mail, nem via emissora) de moradores de Vila Monumento, bairro renegado por Clô. "Definitivamente, não", garante o autor. Ele não tem a menor dúvida de que "a Clô e todos os personagens do núcleo (interpretados por Francisco Cuoco, Bruno Gagliasso, Gabriela Duarte e Flávio Migliaccio) estão cumprindo bem sua principal função, que é fazer o público rir com leveza".

Figurino. Para Irene, a identificação de Clô com São Paulo tem um de seus principais pilares no figurino da personagem. "O correspondente no Rio usaria um bom bermudão, iria para uma roda de samba, tomaria um chopinho na calçada do boteco", diz.

Gogóia Sampaio, a figurinista, concorda. "No Rio a gente tem a praia e as opções são diferentes, somos mais descontraídos. Em São Paulo, as pessoas andam mais vestidas, a cidade tem outro clima", diz ela, que há 20 anos veste personagens e assinou o guarda-roupa de novelas como Ciranda de Pedra, Belíssima e Da Cor do Pecado e da minissérie Queridos Amigos.

Para ela, que na novela é casada com um empresário do ramo de reciclagem, "o universo do Silvio de Abreu é tão paulista que, cada vez que lemos um texto dele, ficamos um pouquinho paulistas". "Eu cresci assistindo às novelas dele, adoro."

Irene conta que, nos primeiros capítulos, quando vestiu um terninho multicolorido da personagem, perguntou a Gogóia: "Como é que se usa uma roupa dessa? Que Deus me ajude!"

Para conhecimento geral, Gogóia informa que o terninho era de grife - não quis dizer qual para "não ser injusta com as outras". No CAT, o Centro de Atendimento ao Telespectador, a informação é que a maioria das roupas de Clô são confeccionadas no próprio ateliê da emissora.

Autêntica. Irene nem precisou da explanação de Gogóia para entender que "o problema não é usar o terninho (multicolorido), o problema é usá-lo com tudo aquilo junto, os óculos, a bolsa, as bijuterias".

A autenticidade de Clô conquistou a simpatia de Gogóia: "Ela não é cafona!", defende a figurinista, peremptoriamente. "Eu a considero uma mulher com coragem de assumir todos os seus desejos mais íntimos. A Clô tem algumas necessidades sociais que fazem dela inadequada às situações."

Em uma sinopse de seu processo de criação, Silvio de Abreu explica: "Eu procuro reproduzir a realidade dentro da minha fantasia."

OUTRAS PERUAS QUE MARCARAM ÉPOCA

Rafaela Alvaray, Brega e Chique (1987)

Mulher rica e chique, mora em um bairro nobre de São Paulo. O marido, um empresário, finge morrer para fugir da falência. Ela fica pobre e vai viver em um bairro mais simples. Para ganhar a vida, começa a vender quentinhas, mas não perde a pose.

Maria do Carmo, Rainha da Sucata (1990)

Na trama, a personagem interpretada por Regina Duarte se torna uma empresária bem-sucedida ao seguir o negócio do pai, proprietário de um ferro-velho. Chega a ser dona de um prédio na Avenida Paulista. No final da trama, fica pobre e volta a vender sucata.

Ornela, Belíssima, (2005/2006)

A personagem da atriz Vera Holtz era uma socialite paulistana. Não trabalhava e tinha namorados mais novos. Também aparecia acompanhada de garotos de programa. Estava sempre preocupada com tratamentos de beleza e usava roupas de gosto muitas vezes duvidoso, exagerado.

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