Daniel Teixeira / Estadão
Daniel Teixeira / Estadão

A Perdizes dos anos 1910 a 1940 vira patrimônio da cidade de SP

Prefeitura homologou o tombamento do Colégio Santa Marcelina e de outros 39 imóveis; do total, a maioria se tornou espaço de comércio e serviços

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2018 | 03h00

Correções: 08/08/2018 | 10h13

"Uma idealizada vida campestre, natural e simples” é como o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH) descreve o estilo do antigo chalé do Dr. Franco da Rocha, construído em 1910. Essa Perdizes, do início do século passado, hoje escondida por prédios, virou patrimônio. Na quinta-feira, 19, a Prefeitura  de São Paulo homologou o tombamento de 40 imóveis no entorno de Perdizes, incluindo espaços na Água Branca e na Barra Funda. Dentre eles, originalmente, 37 eram residências unifamiliares. 

Hoje, o modelo prossegue em apenas cinco. Nas restantes, foram instalados escolas e espaços de comércio e serviços, além de duas pensões e residenciais para idosos. O chalé do doutor, dos anos 1910, de bangalô, se tornou uma farmácia em 2014. Hoje vive realidade distinta, em um dos distritos mais populosos da zona oeste de São Paulo. 

Mas não é caso isolado. Na região, a maioria da população vive em edifícios, erguidos principalmente após os anos 1970, período em que o Plano Diretor proibia prédios de uso misto. Por isso, o comércio migrou para as casas, explica Lucio Gomes Machado, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). “Tudo que não é usado vira ruína”, pontua. "Já existiu, durante uma certa época, a identificação entre construção antiga e centro cultural, mas isso não tem nada a ver. O importe é continuar vivendo", acrescenta.

O tombamento reúne imóveis construídos nas primeiras quatro décadas do século 20. Os bens têm estilo neocolonial e eclético, sem assinatura de arquiteto famoso. A exceção é o único edifício tombado, que foi reformado em 1948 por Oswaldo Bratke, autor da sede da Fundação Maria Luiza e Oscar Americano. 

Além de sobrados, casarões e afins, também foram tombados o Colégio Santa Marcelina (de estilo neogótico) e o Centro de Educação Infantil MMDC. Com exceção da escola e de uma casa, que hoje abriga uma instituição católica, os demais precisam preservar apenas as características externas. Todos foram apontados para preservação por moradores em processos em 2011 e 2016.

Entre os proprietários, a decisão divide opiniões. A aposentada Marilda Carvalho, que viveu 70 dos seus 80 anos em uma residência na Água Branca, discorda do tombamento e diz que a casa é “como outra qualquer”.

"É minha e não posso mexer”, reclama, em relação à necessidade de aprovação para fazer modificações na fachada. O aposentado, Celso Paschoal Moraes, de 71 anos, vê de outra forma. “Para mim não tem diferença. A única deve ser econômica, porque não pode derrubar, mas nunca fui atrás”, aponta. Morador de um sobrado na Barra Funda há 13 anos, herdou o imóvel de um tio. “Hoje não se tem nenhuma pretensão de uma casa durar o que essa dura, com material bom”, elogia.

Já Ângela Castello Branco, de 41 anos, e Giuliano Tierno, de 40, alugaram um espaço na região justamente pelas características dos anos 1930. Em 2015, fundaram o centro de arte e educação A Casa Tombada, instalado em duas casas geminadas na Avenida Ministro de Godoi. “Estava caindo aos pedaços. Investimos o que tínhamos na reforma, pelo gosto de cuidar da casa”, conta Ângela. “O projeto teve muito esse apelo da casa como elemento central, a sala é uma sala, o quintal é um quintal de convivência. Chamamos os alunos de moradores. É uma outra forma de morar, em torno de ideias."

Confira o endereço dos 40 imóveis tombados:

01. Rua Cardoso de almeida, 1.065 - Perdizes;

02. Rua Dr. Homem de Melo, 165 - Perdizes;

03. Rua Dr. Homem de Melo, 167 - Perdizes;

04. Rua Parintins, 120 - Barra Funda;

05. Rua Lavradio, 73 - Barra Funda;

06. Rua Lavradio, 71 e 71a - Barra Funda;

07. Rua Lavradio, 65 - Barra Funda;

08. Rua Lavradio, 55 - Barra Funda;

09. Rua Lavradio, 53 - Barra Funda;

10. Rua Doutor Cândido Espinheira, 412 - Perdizes;

11. Rua Doutor Cândido Espinheira, 449 - Perdizes;

12. Rua Turiassu, 98 - Perdizes;

13. Rua Turiassu, 99 - Perdizes;

14. Rua Cardoso de Almeida, 541 - Perdizes (Colégio Santa Marcelina);

15. Rua Ministro de Godoi, 81 - Perdizes (Centro de Educação Infantil M. M. D. C);

16. Rua Ministro de Godoi, 101 e 109  - Perdizes;

17. Rua Ministro de Godoi, 109 - Perdizes;

18. Rua Dr. Cândido Espinheira, 882 - Perdizes;

19. Rua Dr. Cândido Espinheira, 866 - Perdizes;

20. Rua Dr. Cândido Espinheira, 850 - Perdizes;

21. Rua Dr. Cândido Espinheira, 846 - Perdizes;

22. Rua Dr. Cândido Espinheira, 832 - Perdizes;

23.  Rua Dr. Cândido Espinheira, 830 - Perdizes;

24. Rua Turiassú, 566 - Perdizes;

25. Rua Melo Palheta, 37 - Barra Funda;

26. Rua Dona Germaine Burchard, 458 - Água Branca;

27. Rua Dona Germaine Burchard, 418 - Água Branca;

28. Rua Itapicuru, 402 - Perdizes;

29. Rua Cardoso de Almeida, 520 - Perdizes; 

30. Rua Minerva, 156 - Perdizes;

31. Rua Dr. Homem de Melo, 786 - Perdizes;

32. Rua Itapicuru, 381 - Perdizes;

33. Rua Monte Alegre, 715 - Perdizes;

34. Rua Dr. Homem de Melo, 446 - Perdizes;

35. Rua Dr. Homem de Melo, 438 - Perdizes;

36. Rua Cardoso de Almeida, 586 - Perdizes;

37. Rua Caiubi, 242 - Perdizes;

38. Rua Cardoso de Almeida, 1.182 - Perdizes;

39. Rua Cardoso de Almeida, 1.538 - Perdizes;

40. Rua Cardoso de Almeida, 1.528 - Perdizes.

Correções
08/08/2018 | 10h13

O processo de tombamento de Perdizes no Conpresp indica que o imóvel na Dr. Homem de Melo também pertenceu a Homem de Melo. No local, a indicação é de que pertenceu a Dr. Franco da Rocha, informação também apontada em artigo científico sobre os chalés paulistanos.

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