A nova voz do jazz 'Made in São Paulo'

A mezzo-soprano Inês Stockler, que ensina história da música e técnica vocal para a cantora Cris Oak, começa a entrevista com um sonoro aviso: "Eu não falo de política, tá?" Inês prefere não se manifestar sobre as inclinações do pai famoso da aluna, que concorre ao Senado pelo PMDB paulista nas próximas eleições.

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2010 | 00h00

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somOuça Cris Oak cantando ‘Sunny’

Cris também não se sente confortável quando a associam a ele. Quer ser reconhecida pelo próprio talento. "Ela é afinadíssima, tem ouvido, graça, nasceu para cantar", avalia Inês, que dá aulas de Arte do Canto Através dos Tempos, no Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Na criação do nome artístico, Cris Oak fez duas escalas pelo mundo, traduziu suas origens e escondeu-se em uma charada. Ela explica que Oak, em inglês, é Carvalho; e Carvalho, em italiano, é Quércia. Pronto: agora já é possível compreender a preocupação da cantora em não misturar habilidades artísticas e políticas.

Parênteses: "O Orestes também canta", garante um dos incentivadores da carreira de Cris, o músico Juliano D"Horta, dono do bar JA 367, na Rua Joaquim Antunes, em Pinheiros, onde a cantora costuma apresentar-se às sextas. Juliano não soube dizer o tipo de música que o candidato canta.

Fecha parênteses: quanto a Cris, "ela tem um dom musical muito valioso, uma cancha natural que não se aprende", diz D"Horta. "É uma cantora que sabe para onde está indo (na música), tem um feeling adquirido e um tempo que vem da intuição", diz.

No bar, Cris canta o jazz clássico de Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Nina Simone, e também o repertório de Amy Winehouse, Alicia Keys e Erykah Badu. D"Horta identifica no timbre dela algo de Dinah Washington.

Grande intérprete. O começo foi no Baretto, o bar do Hotel Fasano, nos Jardins, onde os prodigiosos ouvidos de Cris tiveram contato com canções como Old Black Magic, eternizada na interpretação de Ella Fitzgerald, e Speak Low (sua versão preferida é a de Smokey Robinson). Surpreendentemente para todos, até mesmo para o diretor artístico do Baretto, Mario Edison, e para o cantor David Gordon, que se apresenta lá, Cris se sentiu tão à vontade com aqueles vibratos que um dia começou a reproduzi-los com inesperado virtuosismo.

"Ela é afinada, tem presença, canta direitinho", diz Mário Edison. "É uma grande intérprete, do tipo que ouve versões de clássicos e faz melhor, acrescenta. O público parava para ouvi-la cantar Summertime. Todo mundo perguntava quem era aquela cantora", diz Gordon.

E quem é? Mais velha de quatro irmãos, Cris tem 24 anos, mora com a família na Chácara Flora (zona sul de São Paulo), cursou Direito na Faap e viajou um pouco para fora (no dia da entrevista, levou a tiracolo um amigo francês em visita à cidade).

Escolheu para o encontro o bar Lorena 1989, recém-inaugurado e já bombando nos Jardins. Chegou de legging preto, camiseta de malha meio velha "do meu irmão", galochas coloridas, anelões e penduricalhos. "Ah, é uma roupa qualquer", diz ela, com um olhar distante. Recentemente, Cris fez o fundo musical no lançamento da coleção verão feminina da Daslu.

Já tinha gravado um CD, a convite de uma rádio que toca "músicas de todos os tempos". Nas 12 faixas, ela canta, além das já citadas, canções como What a Difference a Day Made; My Funny Valentine e Sunny.

"Uns amigos meus dizem que (o CD)toca muito", diz ela, levantando displicentemente os ombros. "Toca demais, eu sempre ouço", confirma Lucimar Franceschini, assessora de Orestes Quércia enviada para acompanhar a entrevista.

Outras descobertas. Pelo que se depreende da conversa, a música a levou a outras descobertas. Desde que passou a ter aulas particulares no centro da cidade, para intensificar a parte técnica com a professora Inês, ela chegou ao lugar mais distante que já esteve em São Paulo: o Largo do Arouche.

Para a garota que sempre frequentou o eixo Jardins, Higienópolis, Disney, Londres, Nova York etc, o centrão antigo revelou-se, paradoxalmente, uma novidade.

"Como são lindos aqueles predinhos, ai, eu adoro, adoro", diz ela, que na infância estudou piano, mas não levava a sério ("fingia que estava lendo a partitura e repetia de ouvido, coisa de criança boba") e agora pratica que é uma beleza. Nas aulas do Masp, vai do barroco ao jazz, passando pelo lírico.

"Não adianta ser uma cantora que não sabe o que está cantando", diz ela, muito séria em sua intenção de educar seus ouvidos.

Subir ao palco não a intimida. Muito envolvida com a parte mais "elevada" da música, ela trata o acanhamento como algo menor. "Uma cantora é apenas o canal. A música vem antes dela. A pessoa física está ali para dar passagem." Dá-lhe professora Inês.

PLAYLIST

1. Speak Low

OGDEN NASH E KURT WEILL

2. What a Difference a Day Made

MARIA GREVER E STANLEY ADAMS

3. Rock With You

ROD TEMPERTON

4. My Funny Valentine

LORENZ HART E RICHARD ROGERS

5. Sunny

BOBBY HEBB

6. Stormy Weather

HAROLD ARLEN E TED KOEHLER

7. Moonlight Serenade

GLENN MILLER E MITCHELL PARISH

8. Summertime

GEORGE GERSHWIN

9. Crazy Little Thing

FRED MERCURY

10. Dindi

ANTONIO CARLOS JOBIM

11. That Old Black Magic

HAROLD ARLEN E JOHNNY MERCER

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