A musa dark da literatura se reinventa

Márcia Denser conservou apenas o cabelo loiro elétrico dos loucos tempos de 'Diana Caçadora', seu grande sucesso. Agora, ela volta com 'emoções mais apuradas'

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

O batom rosa no lugar do vermelho, um cinzeiro pobre de bitucas e a taça preenchida com um tímido refrigerante alaranjado denunciam a novidade: Márcia Denser está maneirando para poder voltar. A escritora paulistana que usava uma instigante São Paulo como pano de fundo das histórias de Tango Fantasma (1977) e Diana Caçadora (1986) se prepara para escrever um novo romance, do qual não fala "para não dar azar". Deixa também o posto de curadora da Biblioteca Sérgio Milliet, no Centro Cultural São Paulo, para se dedicar exclusivamente à literatura.

Aos 61 anos, Márcia procura o novo - só não mexeu no cabelo loiro elétrico que sempre foi sua marca registrada. É a primeira vez que experimenta a jornada única - de resto, já foi jornalista e escritora, publicitária e escritora, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e escritora, boêmia ("alta boêmia", confessa) e escritora. "A Márcia Denser sempre bebeu muito", explica-se pelo copo de refrigerante. "Mas parei porque preciso apurar melhor minhas emoções. Porque sem emoção você não escreve, sabe?"

Pauliceia glamourosa. As maiores emoções de Márcia foram na São Paulo dos anos 1970 e 1980, onde a intrépida Diana Marini - sua personagem recorrente e alter ego assumido - batia ponto nas altas rodas da boemia paulistana, em lugares como o Redondo, Paribar, o restaurante Marcel, Galeria Metrópole, Rua Augusta. Não por acaso, os mesmos lugares que Márcia frequentava na vida real com sua turma de escritores amigos: Caio Fernando Abreu, Ignácio de Loyola Brandão, Ivân Ângelo, Antônio Torres.

"Era uma São Paulo muito mais interessante. Existia toda uma classe boêmia, as pessoas eram muito mais cosmopolitas e independentes." Da convivência com Caio Fernando Abreu - que lhe deu o famoso apelido de "musa dark da literatura brasileira" - guarda boas lembranças. "Caio tinha uma poderosa persona externa, que foi mitificada nas gerações posteriores, mas era um cara comum. Essa coisa de musa era mais uma das histórias que ele inventava sobre todo mundo. Os anos eram dark, tudo era meio dark."

Márcia não esconde o desprezo ao constatar quem substituiu a "turma da literatura" nos bares da cidade. "Os emergentes de plantão. Esse pessoal que só vê filme dublado", alfineta. Hoje, ela estranha não só as pessoas como a "nova ordem social" da cidade grande. "Fico estarrecida com tanto conservadorismo. Antes, você podia entrar em um restaurante, escrever, fumar - meu conto Relatório Final foi escrito no guardanapo. Agora, você vai no bar e fica de castigo."

Da mão à máquina. Na falta do guardanapo, Márcia aderiu ao computador. Não foi fácil pegar confiança na máquina depois de perder, em 2006, as anotações eletrônicas para um conto que escreveria em homenagem ao pai. "O medo de perder tudo era uma preocupação entre os escritores. A gente se ligava e dizia: "Mas e aí, como você faz? Ah, eu vou imprimindo"", diverte-se.

O primeiro livro, Tango Fantasma, foi todo escrito à mão. "Eu era gás. Nem sabia o que estava escrevendo. Precisou alguém olhar os textos soltos e falar: "Olha, isso é um livro"." Seus mentores na época foram Hamilton Trevisan e Ênio Silveira, além de Paulo Francis - que se desmanchou em elogios à autora de O Animal dos Motéis, em 1981. Veio mais um apelido que ela até hoje adora: a escritora preferida de Paulo Francis.

Outra persona. Durante o tempo em que bancou as desventuras sexuais da caçadora Diana, Márcia carregou o estigma do intérprete que é confundido com o personagem. "Odiava que os homens olhassem em mim a Diana. Claro que ela é um arquétipo do que existe em mim e em todas as mulheres, mas não é real. Eu não aguentaria ser 24 horas por dia uma mulher assim."

Mas, durante um tempo, até que foi. "Sim, existia aquela liberdade sexual toda. Só que agora todo mundo que fez renega." Ela se gaba de ter levado o despudor para a literatura. "Foi quando a crítica descobriu que mulher conseguia fazer algo que homem não: falar de erotismo sem virar pornografia."

Hoje, com outras Dianas caçadoras na literatura por aí - "virou comum, né?" -, Márcia não teve pudor na hora de dar um sumiço na sua própria. Substituiu-a por outra personagem, novamente talhada à sua imagem e semelhança. "Diana se transformou na Júlia. Uma mulher de mais de 40 anos, mais sábia, mais triste, não tão suicida nem tão maluca. Eu também amadureci", diz. Júlia Zemmel aparece no romance Caim, de 2006, e em Toda Prosa II, seu último livro de contos inéditos, publicado em 2008.

No imaginário. Da literatura contemporânea, ela cita alguns nomes que admira: Clarah Averbuck, André Sant"Anna, Fabrício Carpinejar. Mas critica com veemência alguns padrões do mercado editorial de hoje. "Tem escritor que produz exclusivamente para o mercado, faz um livro por ano e nenhum é bom. Essas obras não vão ficar. E nem o cara se incomoda em ficar."

E o que importa hoje para Márcia é ter ficado. "Caio (Fernando Abreu) escreveu Morangos Mofados; eu, a Diana. É o que importa: o livro representativo."

Na preparação para o próximo, quer dedicação total - trabalhar 12 horas por dia, sem parar. Ou tentar conquistar alguma disciplina para isso. Talvez a calma do escritório no primeiro andar de casa, na Aclimação, na zona sul, ajude nisso. Se não ajudar, tudo bem. "Não tenho mais saco para fingir. Quero é mostrar minha face modelada pelo tempo, pelo sofrimento, pela alegria e pela dor. É isso que com a maravilha dos anos a gente consegue colher."

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