Capítulo 10

A médica e as soldados: as mulheres da Revolução Constitucionalista

Atuação no movimento de 1932 fez de Carlota Pereira de Queiroz a primeira deputada federal eleita no País, mas a participação da maioria das mulheres foi sendo esquecida ao longo do tempo

Carla Miranda, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2019 | 15h38

Havia Carlota, Pérola e várias Marias. E também outras cujos nomes foram sendo esquecidos ou apagados nos registros históricos da Revolução Constitucionalista de 1932.  Sim, muitas mulheres participaram da luta paulista pela Constituição e contra Getúlio Vargas. Eram cerca de 7.200. Não, elas não atuaram apenas tricotando gorros para os soldados ou doando seu ouro para o bem de São Paulo, muito embora tudo isso tenha ocorrido.

Carlota Pereira de Queiroz, médica e educadora, liderou o Departamento de Assistência aos Feridos, subordinado ao Departamento de Assistência à População Civil, dirigido por Olívia Guedes Penteado. Pérola Byington colocou a Cruzada Pró-Infância, que havia fundado pouco antes, entre as associações que ajudariam as famílias dos combatentes. Outras pegaram em armas, como a cozinheira Maria José Barroso ou a professora Maria Stela Rosa Sguassábia.

Nas fileiras da Legião Negra, Maria José combateu com roupas de homem. Sua identidade só ficou conhecida depois que foi ferida na batalha. Virou Maria Soldado. Anos depois do fim da guerra, Getúlio veio a São Paulo e quis conhecê-la. “Eu não aperto a mão de ditador”, respondeu Maria, que morreu tão humildemente como nasceu.

Também disfarçada, a professora Maria Sguassábia iniciou sua marcha a partir da fazenda Pauliceia, em São João da Boa Vista. Viúva e com uma filha pequena, ela decidiu se juntar aos combatentes após ver um soldado desertando. Quem primeiro notou sua presença foi o irmão dela, Antônio, que também fazia parte do batalhão. Maria sobreviveu e chegou a ser perseguida após a derrota paulista, perdendo momentaneamente o cargo de professora.

Já Carlota entrou para a história política do País, como você pode ouvir no podcast Pioneiras, feito pelo site Capitu. Indicada pela Associação Comercial, pela Federação dos Voluntários e por entidades femininas que haviam participado da guerra, ela compôs a Chapa Única por São Paulo Unido!, que reunia 22 candidatos ligados ao Partido Republicano Paulista (PRP) e ao Partido Democráticos (PD), cujos líderes se encontravam em exílio após a empreitada contra Getúlio.

A campanha contou com o entusiasmo de Pérola e Olívia, suas amigas, responsáveis pela publicação do manifesto Mensagem da Mulher Paulista, que pedia o voto feminino para Carlota. Em um sistema com duas fases para a escolha de deputados, a médica recebeu 5.311 votos no primeiro turno e quase 177 mil no segundo. Carlota se tornou a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Câmara, em 1933. Era a única entre os 253 parlamentares da época. Um feito e tanto quando se pensa que o voto feminino só tinha sido instituído um ano antes, pelo próprio Getúlio.

Tomou posse em novembro, mas demorou alguns meses para fazer sua estreia falando ao plenário. Em seu primeiro discurso, em 13 de março de 1934, disse ter chegado ao Legislativo graças a uma evolução da sociedade, que permitia à mulher conquistar direitos políticos e civis. “Cabe-me a honra com a minha simples presença aqui de deixar escrito um capítulo novo para a história do Brasil, o da colaboração feminina na política do país”, afirmou a médica.

Como deputada, participou da Comissão de Educação e Saúde e se dedicou a projetos voltados à assistência social. Assinou a Constituinte de 1934 e conseguiu a reeleição. Nunca se assumiu feminista, gostava de dizer que se dedicava a causas femininas e também a São Paulo. Uma posição que em boa parte das vezes afastava a médica paulista da segunda mulher a ocupar uma cadeira na Câmara, a bióloga e feminista Bertha Lutz, uma das líderes do movimento que garantiu o direito feminino ao voto. Bertha havia sido eleita como suplente e assumiu a vaga no Legislativo pelo Rio, após a morte do titular, Cândido Pessoa.

Ambas perderam o cargo em 1937, quando Getúlio instaurou o Estado Novo e fechou o Congresso. Estava sendo interrompida ali também a história da participação política das mulheres no Congresso, que só voltou a ocorrer em 1950, com a eleição de Ivete Vargas, sobrinha de Getúlio. Carlota chegou a se candidatar na redemocratização, sem sucesso.  Morreu aos 90 anos, marcando seu legado também na educação e na medicina.

Homenagens a ela se espalham hoje pela cidade. Virou nome de avenida na zona sul e de escola municipal na leste. Um busto em sua homenagem foi instalado na Praça Califórnia, em Pinheiros, zona oeste.

Ainda batiza o Diploma Mulher-Cidadã, promovido pela Câmara dos Deputados em Brasília, para as mulheres que mais contribuíram para o pleno exercício da cidadania e para a defesa dos direitos femininos e das questões de gênero no Brasil. No ano passado, uma das homenageadas com o prêmio, in memoriam, foi a vereadora carioca Marielle Franco, cujo assassinato completou um ano em março e ainda não foi totalmente esclarecido.  

Maria Sguassábia é nome de rua em São João da Boa Vista. Maria Soldado, em Campinas e em Limeira. Escolhida pela Câmara de São Paulo a mulher-símbolo da revolução, quando o movimento completou 50 anos, Maria Soldado também batiza o museu que reúne as relíquias de 1932. Seus restos mortais estão no Obelisco do Ibirapuera, erguido em homenagem aos combatentes. Foi a primeira mulher a ter esse espaço no mausoléu, mas não é a única. Só no ano passado, em um 9 de julho como hoje, as cinzas de outras três foram depositadas no mausoléu. Elas participaram da revolução como tantas mais, trabalhando como enfermeiras, preparando comida para os soldados, auxiliando na confecção de roupas.

Foram cerca de 7.200, 15% da população feminina da capital na época. A maioria quase absoluta não aparece na documentação histórica sobre 1932. Nos registros fotográficos, elas são mais frequentemente retratadas em atividades “de mulher”, como a costura e a preparação de refeições. Ou enfermeiras, no máximo. Raramente, em primeiro plano.

Carla Miranda

Carla Miranda

Editora do Capitu

Jornalista, doutora em comunicação e mãe de duas meninas superpoderosas. Especialista em jornadas duplas ou triplas, como quase toda brasileira.

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