A luta contra o crime

As cenas de violência, pânico e - por que não dizer? - guerrilha urbana que tomaram as ruas do Rio de Janeiro nesta semana ressoaram muito além do balneário carioca. Não apenas pela dimensão da baderna, mas em parte também por obra e desenho das autoridades do País. Após tanto clamar seu merecido lugar no palco global, o Brasil agora se vê obrigado a administrar a imagem superdimensionada, ao maior estilo "cuidado com o que você deseja, pois você pode conseguir".

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

Melhor assim. A lente de aumento que destaca o país em ascensão, um retrato com verrugas e tudo, também apresenta a oportunidade de focar melhor um problema que é uma chaga continental e terá de ser encarado como tal. A ameaça do crime de drogas, organizado ou não, não é nova no Brasil nem minguante no hemisfério ocidental e já rendeu às Américas neologismos como narcotraficantes e metáforas nada lisonjeiras como colombianização. A presença de armas de guerra em meio à megacidade é um coquetel explosivo. Adiciona-se a internet, GPS e mercados globalizados, que permitem a qualquer um mover fortunas ao teclar de um BlackBerry, e a ameaça sobe de patamar, desafiando não apenas a paz e a ordem urbanas, como também a integridade de Estados soberanos. O requinte tecnológico dos traficantes cariocas - pés-rapados munidos de metralhadoras e testosterona - talvez não impressione. Já a resposta das autoridades brasileiras, que juntaram polícias, Forças Armadas e toda a parafernália de segurança moderna (de blindados anfíbios a mapeamento georreferenciado), sinaliza um salto na compreensão da luta contra o crime organizado que ultrapassa corporações e costumes, e ainda demanda nova leitura das atribuições constitucionais. Como no combate ao aquecimento global, enfrentar o crime organizado pode exigir parcerias incomuns e cessão de soberania local a instâncias maiores. Mesmo quando isso mexa com os brios de comandantes, generais e caciques políticos.

Pois a bandidagem já evoluiu. Costumamos pensar terrorismo como um surto de seitas ensandecidas ou a arma de uma facção ideológica dedicada a instigar uma revolução. Mas o crime organizado, que não hasteia nenhuma bandeira nem Bíblia, manuseia o terror com naturalidade. Faz parte de seu modelo de negócios, como sugere Bob Killebrew e Jennifer Bernal, do Centro para uma Nova Segurança Americana, em seu recente estudo Crime Wars, Gangs, Cartels and U.S. National Security (Guerras do Crime: Gangues, Cartéis e a Segurança Nacional dos EUA)".

Os poderosos cartéis mexicanos, como Los Zetas e La Família, não têm nenhum interesse em tomar o poder, apenas em enfraquecê-lo o suficiente para que possam controlar seus feudos e fazer dinheiro, seja com venda de drogas, tráfico de armas ou exploração de serviços como o gás de cozinha ou a TV a cabo. Nesse modelo, comprar ou intimidar autoridades é fundamental. Já matar - juízes, jornalistas, policiais zelosos, facções rivais - pode ser um "mal necessário" para desequilibrar as forças da lei e manter a desordem institucional que possa garantir o domínio de um reduto do crime. Parece óbvio, mas essa cartilha do crime propõe a redefinição do conceito de segurança pública. Insurgência não é exclusividade de milenaristas ou revolucionários, mas sim uma tecnologia do controle que dá salvo-conduto para a prática de negócios escusos. É a insurgência conservadora, precondição de lucro.

Assim, o crime organizado é bem mais do que um problema policial. Em 1996, segundo Killebrew e Bernal, havia 11 países no mundo arriscados de se tornarem Estados falidos. Dez anos depois, foram 26. A diferença foi a explosão dos cartéis criminosos, que já atuam em 14 países das Américas, todos com instituições frágeis, corrupção visceral e vastas terras de ninguém. Nos últimos anos, só a Colômbia conseguiu enfrentá-los, em um esforço de união nacional que dizimou as Farc e empurrou os sobreviventes selva adentro. E já que o crime é uma bexiga - esprema ali e a estufa acolá -, a colombianização virou a mexicanização, a bolivianização e a guatemalização. Poderia se abrasileirar também, não fosse pela inédita sintonia entre instituições e protagonistas nacionais que cederam cada um seu quinhão de autoridade e orgulho para enfrentar o problema maior. Oxalá que continue assim.

É CORRESPONDENTE DA REVISTA "NEWSWEEK", COLUNISTA DO "ESTADO" E VIVE NO RIO HÁ 28 ANOS

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