A lagartixa

Faz alguns meses que eu e minha mulher nos mudamos. No começo, foi estranho. Demora certo tempo para que um apartamento novo se transforme, de fato, num lar. Há que pintar as paredes e portas, trocar os espelhos de luz e as maçanetas, instalar os móveis e eletrodomésticos, pendurar os quadros, espalhar nossas quinquilharias e então, tudo isso feito, é preciso esperar, como uma planta que foi passada do vaso para a terra, que as raízes penetrem o solo.

Antonio Prata, O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2010 | 00h00

Não: talvez "raiz" não seja uma imagem precisa. O que faz da nossa casa, a nossa casa, é algo mais etéreo, intangível. Um mana, diria um antropólogo. A Força, diria um Jedi.

"Uma lagartixa!", disse eu, assim que a vi cruzando o teto da sala, há uma semana, e entendi que o momento havia chegado.

Lagartixas são a quintessência do lar. Duvido que haja lagartixas em apartamentos vazios. Prédios novos, recém-construídos, devem esperar meses, talvez anos, para poderem contar com a companhia desses pequenos e simpáticos répteis.

Aposto que, em algum ponto da Ásia ou da África, as lagartixas são animais sagrados, cuja presença anuncia paz e prosperidade. Deuses domésticos, como os dos romanos, divindades íntimas, que nada apitam sobre o comportamento do sol ou dos mares, do tempo ou do vento, mas protegem os lares, pairando sobre as famílias, guardando o sono das crianças.

Era assim, pelo menos, que eu pensava, até semana passada. Pois nos dias subsequentes à primeira aparição de nossa companheira não houve paz nem prosperidade, mas tensão e desassossego.

O problema é que a intrépida criatura não se comporta de acordo com suas companheiras de espécie. Para ela, o teto não é suficiente. As paredes, tampouco. Todo dia, ouço gritos da minha mulher: "Ahhhh! Ela tava embaixo da revista!"; "Bleeeergh! Saiu da gaveta de talheres!"; "Faz alguma coisa, Antonio! Faz alguma coisa!".

Bem que eu queria, mas o que? Não se mata uma lagartixa. Não se negocia com uma lagartixa. Só o que posso fazer é tocá-la dali, dizer "xô, lagartixa!", e tentar convencer meu amor de que se trata de um bicho bacana, de que "na Ásia...", de que "os romanos..." Ela diz que meu discurso é muito bonito, mas não paga o preço de abrir o jornal, pela manhã, e dar de cara com aquele dinossaurinho.

Combinamos de esperar uma semana. Se a lagartixa não se emendar, a colocaremos numa caixa de sapato e a soltaremos no Parque do Ibirapuera. Espero não ser castigado pelos deuses. Afinal, ali ela terá bastante espaço para seus passeios, uma abundância de mosquitos, vindos do lago, e bandos de seres humanos para travar contato, caso seja esse o motivo de suas explorações. Aí, quem sabe, nos sentiremos finalmente à vontade, na casa nova.

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